Da Champions #22

Terminou há minutos (no Vicente Calderón e no Allianz Arena) mais uma eliminatória da Champions. Arrisco-me a dizer, em breves palavras, que os quartos-de-final da edição deste ano poderão ficar na história como uma das melhores rondas de sempre da história da prova. Não posso dizer que a ronda tenha tido um único jogo desinteressante nos 8 jogos disputados.

No frenético, entusiasta e saudosista Vicente Calderón, a abarrotar de vermelho, 40 anos depois, o Atlético de Madrid (do mago Simeone; que deliciosa ironia!) volta a atingir as meias finais da prova. 40 anos depois do feito histórico protagonizado por um dos seus maiores símbolos, o recém falecido Luis Aragonés, um dos grandes craques da equipa colchonera que disputou a final da Taça dos Campeões Europeus na época 1973\1974 precisamente contra o Bayern de Munique, um dos possíveis adversários colchoneros nas meias-finais da prova ou até mesmo na final.

Não tenho qualquer pejo em afirmar que, caso este Atlético consiga vencer campeonato e champions, o triunfo é absolutamente merecido. O trabalho que Diego Simeone tem feito numa equipa teoricamente considerada por grande parte da imprensa internacional como um eterno candidato ao 3º lugar em Espanha, está, de que maneira, a baralhar as contas de meia europa.

A crónica mais detalhada sobre a partida do Calderón fica para amanhã. Como amante da arte do futebol, preciso de rever o jogo (ou grande parte deste) para o poder descrever minuciosamente. Acredito que para descrever um jogo destes, ou se descreve com minúcia ou então é preferível não o descrever de todo. Em traços gerais, a entrada do Atlético na partida, ao contrário do que previa (previa um Atlético capaz de colocar um ritmo lento na partida para impedir que o Barça entrasse a todo o gás e pudesse marcar cedo) foi demolidora. Não só pelo golo obtido por Koke, pelas 3 bolas aos ferros da baliza de Pinto mas pela desconcentração pura e pelo nervosismo miudinho que o jogo rápido e açucarado praticado pela equipa de Simeone provocou na incipiente (no jogo desta noite) equipa de Tata Martino. Assertivo também creio afirmar que os catalães sentem algum nervosismo quando não tem bola nos pés. Naturalíssimo dada a matriz em que assenta a sua filosofia de jogo: a posse de bola. Contudo, o nervosismo sentido por Xavi, Messi, Iniesta e seus pares no rectângulo plantado a meio da onda vermelha madridista, resultou, em traços largos, numa enorme quantidade de disparates defensivos na primeira parte (a pressão alta executada pelos colchoneros no meio-campo catalão seguida quase sempre de um recuo das linhas sempre que a equipa da cidade condal conseguia cruzar o meio-campo com bola, obrigou o Barça a jogar mal na saída de bola e a não conseguir meter a bola entre linhas como de resto costuma fazer; Iniesta-Messi-Iniesta com entrada do espanhol em zona de finalização; Iniesta-Messi-Neymar com entrada do brasileiro no espaço livre) numa dificuldade enorme que os catalães tiveram em conseguir arranjar espaço para criar desiquilíbrios (Neymar foi o único capaz de desequilibrar) – por seu turno, o Atlético sempre que foi lá à frente criou perigo. Com Villa a receber mais jogo nos flancos e Adrian com um hábil jogo de área (o avançado também procurou empurrar várias vezes a equipa lá para a frente através de arrancadas individuais quando conseguia ganhar a bola no meio-campo) a equipa ganhou uma enorme mobilidade (com Diego Costa, apesar de Gabi, Koke e Arda serem os mágicos que bem conhecemos, o jogo torna-se ligeiramente mecanicizado para a corrida do avançado naturalizado espanhol) e uma enorme profundidade, que, a bom da verdade, foi a chave do sucesso desta passagem histórica do Atlético. Outra das chaves do sucesso foi a colocação do brasileiro Diego na 2ª parte e o fantástico golo apontado pelo antigo jogador do FC Porto em Camp Nou. Em Madrid começa-se a acreditar que a presença de Diego Ribas no clube é sinónimo de conquistas!

P.S: Monstruosa exibição do nosso Tiago. Posicionamento perfeito do português em campo. É pena o facto do antigo jogador de Benfica, Lyon e Chelsea já ter renunciado à selecção. Na forma em que se encontra é uma mais valia de caras para o meio campo da nossa selecção.

P.S 2: Messi e Iniesta – O primeiro eclipsou-se por completo. Nem pareceu estar em campo. O 2º foi mais marcado que o quinto dos infernos. Quando tinha bola caiam imediatamente três jogadores do Atlético. Simeone sabia perfeitamente que era daqui que vinha metade do perigo deste Barcelona.

No Allianz Arena vi que o Bayern sofreu a bom sofrer para bater o Manchester United. Deixo o comentário para o meu colega de blog André Simões. Não vi o jogo mas gabo desde já David Moyes. Fiquei com a ilacção que contra o Bayern, toda a gente poderá ter visto o melhor Manchester United da temporada.

O que eu ando a ver #59

Não pude deixar de reparar, a meio desta semana, no bode expiatório apresentado pela imprensa espanhola afecta ao Real (Marca, Ás, Cadena Ser) para justificar a “ausência” de Cristiano Ronaldo nas derrotas com Barcelona e Real Madrid através de uma suposta lesão no joelho.

Poucos dias passaram. Contra o Rayo Vallecano, CR7 reaparece com 1 golo e 2 assistências. Esta é uma das grandes diferenças entre Ronaldo e Messi. Enquanto o primeiro andou desaparecido contra Barcelona e Sevilla (jogos com um elevado nível de dificuldade), reaparecendo com toda a pompa que o caracteriza contra o modesto Rayo Vallecano, o outro, lesionado ou não, nunca se esconde no jogo e aparece com o habitual dinamismo que incute no jogo ofensivo da sua equipa. Apesar de não ter sido o melhor em campo no passado domingo (para mim foram Iniesta e DiMaria; este último na primeira parte), mexeu novamente as palhetas, criou literalmente o primeiro golo dos catalães no Bernabéu, jogou, marcou de penalty por 2 vezes e fez jogar.

Jogo para esquecer para Zé Castro. O central português estendeu a passadeira e ofereceu uma noite de terror aos seus companheiros de equipa. Nos últimos 15 minutos, se Ronaldo tivesse sido minimamente eficaz, teriam sido uns 10.

foto do dia

foto do dia

As acções assassinas de Sergio Busquets. Cada vez mais me convenço que o trinco só tem lugar nesta equipa do Barcelona pela capacidade notória que tem de dar pau, provocar adversários e agir da maneira porca como age. Não é que Pepe seja um santo, porque não o é. A pisadela de Busquets ao internacional português é simplesmente vergonhosa e vergonhosa também se deve considerar a passividade de Alberto Undiano neste lance, admoestando Pepe e Fabrègas com o amarelo. O trinco do Barcelona conseguiu ultrapassar a expulsão em mais um clássico.

Momentos-chave da partida:

    A espantosa exibição de Di Maria na primeira meia hora da partida. Slaloms geniais nos quais levou meia defesa do Barcelona. 2 assistências perfeitas para Benzema, precisamente pelo lado de Daniel Alves. O brasileiro não costuma dar abévias do género mas, ontem, foi literalmente comido de cebolada pelo argentino naqueles dois lances. Foi o único capaz de colocar velocidade, rapidez e criatividade no futebol ofensivo do Real Madrid durante toda a partida. Gastou as balas todas na primeira parte (nos festejos do golo do empate sentiu-se sem fôlego) e na segunda, eclipsou-se em virtude do enorme esforço dispendido no primeiro tempo.
  • Se DiMaria construiu, Benzema bem finalizou. 2 espantosos movimentos de área para 2 golos muito interessantes. No primeiro ganhou no ar a Mascherano. No 2º, abriu para o lado e desmarcou-se sem que o argentino ou Piqué estivessem com atenção às suas movimentações. Poderia ter apimentado ainda mais a noite quando minutos depois do 2-1 conseguiu tirar 2 jogadores do Barça do caminho na pequena área com uma recepção orientada a cruzamento de DiMaria na direita. Valeu Piqué nesse lance ao conseguir cortar na linha-de-golo.
  • Lionel Messi e a falta de pressão do meio-campo do Real. Fabrègas e Neymar entalaram a defesa. Xabi Alonso e Luka Modric foram pouco pressionantes. O argentino recebeu a bola como quis no seu spot e no primeiro golo executou a jogada típica do Barcelona recebendo no centro, atraíndo para si toda a defesa madridista para depois libertar no tempo certo para a entrada de Iniesta pela esquerda. Quem fez a pressão a Messi foi Pepe. Ténue. Para travar o argentino só vejo uma hipótese: colocar um excelente central na posição de trinco para seguir o argentino tal e qual Mourinho fazia no ano passado com Pepe. Qualquer treinador que coloque um dos centrais a vigiar directamente o argentino e tentar jogar na antecipação ao jogo que chega ao argentino (como fez Pellegrini no jogo da primeira mão dos oitavos da Champions com Martin Demichellis) arrisca-se a que o argentino brilhe e ainda tire a expulsão ao dito jogador.
  • Sérgio Ramos e Xabi Alonso – Não consigo acreditar como jogadores tão experientes foram capazes de cair em tamanho conto do vigário. No penalty cometido pelo central, as imagens mostram que Neymar isola-se mas ainda tem que driblar Diego Lopez, podendo atirar para a baliza deserta ou para a baliza com a cobertura de Marcelo porque o brasileiro vinha em recuperação. Mesmo que Neymar fosse rapido o suficiente para chegar à bola, tirar o guardião merengue da jogada e rematar antes de Marcelo conseguir recuperar ao ponto de poder cobrir a baliza a um eventual remate do seu compatriota, sabendo que um golo de Neymar faria apenas o empate (resultado favorável em certa maneira aos interesses da equipa de Ancelotti) – com a expulsão e respectivo penalty, ofereceu a vitória de bandeja aos blaugrana. O mesmo se deve referir do penalty cometido por Xabi Alonso. Com 2 jogadores a tapar o caminho a Iniesta, o médio espanhol só tinha que entalar o seu colega de selecção no lance em vez de o ceifar no pé de apoio à descarada.
  • Cristiano Ronaldo e Gareth Bale – se alguém conseguir descobrir nem que seja o ego destes dois no relvado do Santiago Bernabéu, a malta agradece. Em tamanho espectáculo de futebol, foram duas autênticas almas penadas.
  • A necessidade de um trinco – Busquets não faz pressão, raramente se insere na movimentação ofensiva da equipa mas dá pau, muito pau. De mau o menos, o catalão não deixa ninguém jogar. Modric e Alonso tiveram várias vezes de ir às alas ajudar Carvajal ou Marcelo a lidar com Iniesta\Alba (quando lá caiu; na 2ª parte optou por um posicionamento mais central) e Neymar\Alves, descurando a zona central, ou compensar a subida dos laterais. Numa equipa na qual Gareth Bale e CR7 pouco ou nada colaboram nos processos defensivos, as movimentações defensivas destes dois jogadores da dupla de centrocampistas do Real acabou por ser um autêntico pau de dois bicos: se iam às laterais ajudar os seus laterais perante a superioridade numérica manifesta pelos Catalães nos flancos, Xavi e Messi apareciam tranquilamente sem blocos de pressão no centro do terreno. Se pressionavam no centro, nas alas era literalmente um “ai jesus” – Khédira está lesionado, Illarramendi ainda não é aposta para este tipo de jogos. O velhinho Essien pela capacidade que tem de ajudar a estancar os flancos dava cá um jeito…

 

Sorteio da Champions e da Liga Europa

CL

Quartos-de-final

Nesta fase da prova pode-se dizer que quem chegou até aqui, tem capacidades para eliminar qualquer adversário. Os quartos-de-final desta prova são, na minha opinião, a eliminatória mais espectacular da mesma. Basta recordar por exemplo a espectacularidade que eliminatórias como Galatasaray vs Real Madrid ou Borussia de Dortmund vs Málaga deram na edição do ano passado, com reviravoltas quase imprevisíveis, uma delas consumada, no caso do Dortmund.

road to lisbon

Com a final de 24 de Maio no horizonte, no Estádio da Luz, os quartos-de-final trazem-nos 4 excitantes eliminatórias:

  • Barcelona vs Atlético de Madrid
  • Real Madrid vs Borussia de Dortmund
  • Paris Saint Germain vs Chelsea
  • Manchester United vs Bayern de Munique

Exceptuando a eliminatória que vai opor os Red Devils ao Bayern de Munique (não creio que o United tenha de todo bagagem suficiente para eliminar a equipa bávara), todos os restantes jogos são jogos de tripla.

Barcelona vs Atlético de Madrid

Missão espinhola para os catalães. As duas equipas espanholas, respectivamente 2ª e 3ª na actual classificação da La Liga (o Barcelona poderá recuperar a 2ª posição amanhã caso vença o Real no Bernabeu e caso o Atlético escorregue frente ao Bétis no Benito Villamarin ou o Atlético poderá ser o maior beneficiário de uma vitória culé em Madrid, ascendendo à 1ª posição em igualdade de pontos com a equipa de Cristiano Ronaldo) farão, para a Champions, o 4º e 5º embate da temporada. Faltando um jogo por disputar (na 38ª e última jornada da Liga Espanhola, jogo que poderá ser decisivo para as aspirações ao título de ambas as equipas se ali chegarem em condições de se sagrarem campeãs), o saldo de confrontos realizados por estas duas equipas augura bastante equilíbrio para a eliminatória europeia. Nos dois jogos realizados para a Supertaça Espanhola em Agosto, ambas as partidas redundaram em empate (1-1 no Vicente Calderón e 0-0 em Nou Camp), acabando por vencer o troféu a equipa de Tata Martino em virtude do golo marcado em Madrid. Nessa altura, as fantásticas exibições demonstradas pela equipa de Simeone, os primeiros jogos sem Falcão, anunciavam, ao contrário do que previa com a saída do colombiano para o Mónaco, um Atlético de Madrid diferente, capaz, em muitos anos de lutar pelo campeonato espanhol. Para o campeonato, no Vicente Calderón, um novo empate a zero bolas na 19ª jornada confirmou novamente o equilíbrio.

Dois estilos diferentes. O tiki-taka do Barcelona (bastante mais atacante e com menos contenção de bola, na era Tata Martino) frente à retranca inteligente de Simeone. Uma equipa que gosta de circular bola e capitalizar todos os erros defensivos das equipas contrárias, apostando ora nos desequilíbrios que Messi consegue efectuar pelo centro do terreno, conseguindo jogar sempre no limite (ou tira o adversário com um toque subtil quando este está perto de desarmar ou fazer falta, ou consegue enfiar as bolas para as costas da defesa no limite do desarme), ora pelos desequilíbrios que Iniesta e Neymar conseguem fazer pelas alas\alas-centro do terreno no caso de Andrés Iniesta. Se o brasileiro consegue trocar as voltas aos adversários com o seu drible desconcertante, o centrocampista titular da selecção espanhol é um 10 em 1 ao nível de soluções de jogo, graças ao seu poder de aceleração, ao seu drible rasgado, às movimentações que habitualmente faz para o interior da área de forma a aparecer em zona de finalização e à fantástica visão de jogo que possui. Iniesta é para mim o médio mais completo da actualidade do futebol mundial.

Já o Atlético de Madrid possui 3 características muito preciosas que podem irritar a equipa catalã:

  • O seu equilíbrio, organização e posicionamento defensivo. Uma equipa tendencialmente a defender com 9 atrás da linha da bola, bem organizada, com linhas muito juntas, a não dar espaços para jogar e com uma dupla de centrais (Miranda e Godin) quase sempre irrepreensível no desarme tanto pelo chão como pelo ar.
  • Se há coisa que os jogadores do Barcelona odeiam é não ter bola nos pés. A inteligência do meio-campo de Simeone (Gabi, Koke, Arda Turan, Raul Garcia) é capaz de retirar a posse a qualquer equipa e irritá-la profundamente com a sua contemporização de jogo quando a equipa necessita de travar o ímpeto do adversário e acelerar o jogo quando convém (o Atlético é a equipa com melhor contragolpe na Europa neste momento).
  • Um autêntico quebra cabeças na frente. Diego Costa “come o cérebro a qualquer central” – Piqué e Mascherano terão muitas dificuldades para travar o brasileiro. Este deverá “picar-se” com o argentino para “lhe fazer saltar a tampa” – com alguns, o brasileiro agora naturalizado espanhol conseguiu tirar os devidos frutos das picardias armadas. Com outros, como o caso de Pepe e Arbeloa, o “colchonero” saiu muito mal na fotografia.

Aposto numa eliminatória muito equilibrada, com direito a prolongamento no jogo da 2ª mão.

Real Madrid vs Borussia de Dortmund

lewandowski

Reedição da eliminatória das meias-finais da edição da temporada passada.

As condições estruturais actuais das equipas inverteram-se em relação às condições estruturais existentes em Abril do ano passado. Enquanto por um lado, o Borussia de Dortmund vivia o expoente da era Klopp, em Madrid, o egocentrismo de José Mourinho, com o treinador português já planear a fuga antecipada ao contrato assinado com Florentino Perez, minava por completo o balneário merengue (as tricas com Sérgio Ramos e Iker Casillas; a conturbada relação do setubalense com a imprensa espanhola) e a equipa, no rectângulo de jogo, não correspondia minimamente ao seu talento, vivendo quasi dos momentos de génio de CR7. Nas meias-finais da prova, o futebol objectivo do Dortmund, bem construído por Reus e Gotze (entretanto vendido ao Bayern) e bem finalizado por Robert Lewandowski (o primeiro reforço dos Bávaros para a próxima época) redundou numa derrota copiosa de Mourinho na eliminatória, com o polaco a assumir o papel de carrasco no jogo da primeira mão no Westfallen Stadium com um fantástico póquer na vitória por 4-1 dos germânicos. O tardio 2-0 dos espanhóis na 2ª mão foi insuficiente para sonegar a final à equipa de Jurgen Kloop.

Hodiernamente, os papéis inverteram-se. Carlo Ancelotti venceu o desafio Madrid e a equipa respira uma suprema confiança. Lidera a Liga com 4 pontos de vantagem e pode até, amanhã, arredar definitivamente o seu maior rival (Barcelona) da luta pelo título caso vença a equipa de Tata Martino no jogo do Santiago Bernabéu. O target-man do futebol merengue continua e continuará a ser (enquanto permanecer em Madrid) Cristiano Ronaldo. Contudo, a equipa ganhou colectivo e inteligência com Ancelotti. É indiscutível negar neste momento que o italiano não tenha devolvido a Madrid o bom futebol e a ambição que a história do clube, per se, exige a quem o representa. Com um meio campo extremamente inteligente e talentoso (Modric, Xabi Alonso, Isco, o lesionado Khédira) e com um ataque poderosíssimo e em excelente forma (Di Maria, Gareth Bale, Cristiano Ronaldo, Benzema, Morata, o lesionado Jesé Rodriguez) a equipa de Madrid, consegue, ofensivamente, praticar um futebol total com um leque vastíssimo de soluções e mecanismos de jogo, com epicentro na construção de Modric e Alonso, objectivo na finalização ora por parte de Ronaldo ou Benzema e meio na criatividade de Isco, Di Maria e Gareth Bale (o primeiro pelo centro, os segundos tanto pelo centro como pelas alas) através de processos muito simples e objectivos.

Em Dortmund, chegou ao fim a 1ª era Klopp. Creio que com a saída de Lewandowski no Verão, outros que tem acompanhado Jurgen Klopp nestes últimos 4 anos lhe irão seguir os passos. O futebol alemão é mesmo assim. Tirando o Bayern (a equipa mais regular nos últimos 20 anos de Bundesliga), os restantes grandes do futebol alemão (Estugarda, Hamburgo, Borussia de Dortmund, Schalke 04) vão vivendo fases boas e fases menos boas. As fases dependem de muitos factores: do dinheiro existente para investir numa equipa competitiva (relembro que na Alemanha todas as transferências tem que ser pagas a pronto), dos talentos que vem da formação dos clubes, das apostas que os clubes vão fazendo na sua política de transferências e nas apostas feitas com determinados treinadores. Relembro por exemplo que quando Jurgen Klopp foi contratado em 2008\2009, a meio de mais uma crise financeira do clube, os responsáveis do Dortmund estavam longe de imaginar que Klopp, um indivíduo com uma modesta carreira enquanto futebolista e até então treinador de um modesto clube da Bundesliga 2, o FC Mainz (clube que agora tem aspirações europeias na Bundesliga) seria capaz de pegar em meia dúzia de veteranos e meia dúzia de jovens com algum talento (Schmelzer, Grosskreutz, Hummels, Subotic, posteriormente Mario Gotze, Lewandowski, Lukasz Piszczek, Sven Bender, Nuri Sahin) e tornar a equipa bicampeã alemã em 2010\2011 e 2011\2012 e finalista europeia em 2013.

Com a saída de Gotze a equipa tornou-se bastante irregular. A batuta mudou para o criativo da equipa, de nome Marco Reus. É dos pés do antigo jogador do Borussia de Moenchagladbach que sai grande parte do perigo ofensivo desta equipa. O Dortmund joga a época nestes quartos-de-final. A continuidade na Champions poderá devolver o sonho europeu aos adeptos do clube e poderá salvar uma época desastrosa na Bundesliga. O dinheiro da Champions poderá garantir à equipa alemã um poderio financeiro capaz de relançar internamente a equipa na próxima temporada através da contratação de 2 ou 3 reforços de qualidade para as posições chave onde a equipa apresenta alguma carência (as alas e a frente do ataque com a saída de Lewandowski; Pierre Aubemeyang é um jogador talentoso mas não correspondeu minimamente às expectativas fantasiadas pela estrutura do clube aquando da sua contratação).

Uma eliminatória de encaixe homem-a-homem

  • Hummels e Subotic terão a missão de travar as movimentações de área de CR7. Cristiano Ronaldo não poderia ter melhor desafio pela frente visto que a dupla de Dortmund é uma das melhores duplas de centrais da Europa.
  • Schmelzer irá travar um excelente confronto com Gareth Bale. O lateral alemão adora atacar. O galês não pára de atacar. É com esta dupla missão que o alemão entrará em campo: ser profícuo a travar o galês e ser capaz de ir lá à frente executar os seus venenosos cruzamentos.
  • Marcelo vs Kuba – A ofensividade total do brasileiro contra a ofensividade total do polaco.
  • Na batalha de meio-campo, um churrilho de estrelas: Gundogan e Henrik Mkhitaryan contra Luka Modric e Xabi Alonso. 4 grandes tecnicistas. O turco é o único músculo de meio-campo destes se bem que o Croata está sempre em alta-rotação.
  • Lewandowski vs Pepe – O internacional português sabe o quão é difícil parar o polaco quando este embala em drible ou quando este consegue desmarcar-se na área. Não lhe poderá dar nenhum espaço. Com 1 centimetro de espaço, Lewandowski faz estragos.
  • Marco Reus – O joker. É um dos jogadores que mais adoro na actualidade. Completíssimo: capacidade de passe, visão de jogo, fantástico remate de meia distância, inteligência, poderoso no contragolpe. Em dia sim, vence um jogo sozinho.

Prevejo uma eliminatória equilibrada e uma vitória madrilena no final.

PSG vs Chelsea

O Cavalão vs O Cavalinho

Mourinho é o cavalinho. Blanc é o cavalão.

Mourinho entra sem pressão (já a retirou toda a pressão da equipa no que a esta época concerne quando afirmou que estava a construir uma equipa para vencer tudo no próximo ano) mas o que é certo é que apesar das suas constantes declarações, este Chelsea arrisca-se a vencer o campeonato e a Champions.

Laurent Blanc entra com pressão. O proprietário do clube parisiense dotou o antigo seleccionador francês de um plantel de sonho, bem recheado em todas as posições do terreno, para, dominar de forma avassaladora a Ligue 1 e conquistar o título europeu nesta ou na próxima época. ” O Nosso projeto ainda está em construção, mas a nossa ambição é ganhar a Champions League” – afirmou Blanc. Uma construção desmedida, um onze de sonho e muitas soluções no banco de suplentes: de Yohan Cabaye ao mago Lucas Moura, passando pelo rapidíssimo Lavezzi ou pelo tecnicista Verrati.

Batalha de meio-campo – Muito talento em ambos os conjuntos – Matic, Hazard, William, Lampard, Mikel, Oscar, Ramires de um lado. Thiago Motta, Marco Verrati, Cabaye, Matuidi, Pastore do outro. Todas estas soluções garantem força, pulmão, assertividade no passe, inteligência, visão de jogo e criatividade, muita criatividade, em particular, quando falamos de Eden Hazard, o verdadeiro mago desta equipa do Chelsea. Se bem que Oscar é um jogador que me agrada pela simplicidade de processos, pela rapidez que incute na equipa atráves do seu rápido pensamento de jogo e pela rapidez com que, recebendo a bola no meio-campo, não inventa, não engonha e quase sempre consegue descobrir uma excelente solução para dar continuidade à jogada.

Referências de ataque de sonho – Maior pendente para o PSG com Cavani e Ibra. Dois killers. Samuel Eto´o aparece em grande forma nesta temporada, tendo sido decisivo no jogo contra o Galatasaray e noutros desafios domésticos da equipa de Mourinho. Fernando Torres tem por seu turno a estrelinha de campeão. Quando entra, nos minutos finais, costuma ser decisivo. Assim o foi contra o Barcelona há 2 anos e contra o Benfica na final da Liga Europa do ano passado.

O duelo entre PSG e Chelsea será para mim o mais espectacular, futebolisticamente falando.

Manchester United vs Bayern de Munique

champions

O confronto mais desequilibrado destes quartos-de-final. Em breves palavras: à passagem da meia-hora da primeira mão tudo poderá estar decidido. A equipa de Guardiola decide, esmaga, humilha e no final sorri e agradece ao generoso público afecto. David Moyes deverá ter visto o purgatório e o inferno nas bolinhas do sorteio quando se apercebeu que irá defrontar o campeão europeu. Com um plantel desequilibrado, com a moral em baixa, e com uma equipa que neste momento pratica um futebol sem nexo, desligado entre sectores, pouco pressionante defensivamente, as hipóteses deste Manchester eliminar o campeão europeu são quase nulas. Os laivos de genialidade de Robin Van Persie atenuaram por completo uma eliminatória em que os gregos do Olympiacos mereceram mais mas foram muito perdulários no jogo de Old Traford. O mesmo não se irá passar nesta eliminatória: a equipa de Guardiola é absolutamente letal. Cada tiro, cada melro.

 

Liga Europa

Carlos Bacca

Porto vs Sevilla

Ainda no rescaldo de Napoli. Nunca pensei que este Porto fosse capaz de tamanha proeza. Mérito de Luis Castro, demérito da equipa Napolitana. O Porto segue para a casa de partida. Ou melhor, para um das casas de partida: Sevilla. Sanchez Pizjuan, o mítico estádio da capital Andaluz onde o Porto de Mourinho conseguiu o seu primeiro triunfo na competição, na altura, ainda denominada como Taça UEFA, naquele jogo de loucos frente ao Celtic de Glasgow de Henrik Larsson.

O Sevilla não era a equipa mais forte a sorteio. A Juventus e o Benfica seriam adversários muito mais fortes que a equipa sevilhana.

Vinda de uma eliminatória difícil contra o rival Bétis (derrota em casa por 2-0, vitória mesmo ao lado no Benito Villamarin por 2-0 com o triunfo na eliminatória a ser obtido na marcação de grandes penalidades) o Sevilla, actual 7º classificado da Liga Espanhola é uma equipa, no mínimo, inconstante. É uma capaz do pior e do melhor num curto espaço de tempo.

O Porto irá reencontrar Beto. O português é o titular da baliza sevillana e está na equipa andaluz em definitivo depois de ter cumprido a segunda metade de 2012\2013 por empréstimo do FC Porto. À sua frente Beto tem uma defensiva agressiva mas bastante inconstante. Tanto Federico Fazio, como Javi Navarro como Dani Pareja são centrais que conseguem executar uma boa marcação (a Jackson e Ghilas) usando e abusando do físico. Contudo são dois centrais muito instáveis ao nível exibicional, cometendo bastantes falhas. Nas alas jogará o português Diogo Figueiras (o tal desconhecido que o Sevilla veio buscar ao Paços de Ferreira). O português é um lateral bastante ofensivo e faz boas combinações com os jogadores que actuam na direita (Reyes, Perotti). Na esquerda estará Alberto Moreno, uma das estrelas da equipa. Equilibrado, é certinho a defender e a atacar. Se Luis Castro colocar Quaresma na direita, Moreno tem capacidade para estancar aquele que neste momento é o jogador que cria mais perigo na equipa do Porto.

No meio-campo Unay Emery tem apostado mais (quando digo apostado mais, quero com isto dizer que Emery não costuma apresentar um onze base e por norma faz rodar imenso o plantel) num meio-campo composto por Carriço a trinco (esse mítico) Ivan Rakitic na construção de jogo (é o cérebro da equipa) José António Reyes numa ala, Perotti na outra, Marko Marin ora no centro na criação de jogo ora no flanco direito, e um ataque composto ou por Carlos Bacca (sozinho) e Kevin Gameiro ou por Carlos Bacca e Jairo Samperio mais recuado nas suas costas, ou por Carlos Bacca e Vitolo nas suas costas, papel onde se sente claramente mais à vontade como tecnicista que é.

De onde é que vem o perigo deste Sevilla?

  • De Rakitic. É o motor desta equipa espanhola. Joga e faz jogar. Sem o croata, os sevilhanos não conseguem ser objectivos no seu jogo ofensivo.
  • De Carlos Bacca. Jackson conhece-o bem porque são companheiros de selecção. Mortífero. Acrobático. Fortíssimo nas movimentações de área. Mangala, Maicon, Reyes ou Abdoulaye não lhe poderão dar um milímetro. Transforma uma bola morta em golo.
  • De Kevin Gameiro. Menos efectivo que Bacca mas o luso-francês também é um homem de área.
  • De Reyes. Numa bola parada, num cruzamento, espeta a bola na área e assiste com pinta um dos seus companheiros
  • De Marco Marin. O alemão está a subir de rendimento nesta parte final de temporada. Quando mete o turbo, é menino para individualizar, sacar 2 ou 3 adversários da frente e construir uma situação de perigo.

Benfica vs AZ Alkmaar

Dick Advocaat

Ao Benfica saiu a lotaria. Ao AZ a fava que ninguém neste momento queria.

O treinador do AZ, Dick Advocaat pode dizer que sabe o que é vencer esta competição. O treinador de 66 anos, um dos globetrotters da actualidade do futebol mundial (já treinou em 7 países diferentes) leva no seu extenso currículo, para além do título holandês conquistado em 1996\1997 ao serviço do PSV, das 2 ligas escocesas conquistas pelo Rangers entre 1998 e 2000 e do título russo conquistado em 2007 ao serviço do Zenit, uma vitória na competição na época 2007\2008 precisamente ao serviço da equipa de São Petersburgo. No ano em que os semi-desconhecidos do Petrovski (Arshavin, Anyukov, Fayzulin, Denisov, Konstantin Zyryanov, Pavel Pogrebnyak) se deram a conhecer à europa e catapultaram o Zenit para um estatuto europeu até então nunca detido pelo clube da antiga Leninegrado.

A equipa que orienta é neste momento 7ª classificada da Eredivisie, lugar que para já lhe garante a participação no playoff final disputado entre todas as equipas que se classificarem entre o 3º e o 8º lugar (apuramento para as competições europeias). Pelo menos, a coisa na Liga Holandesa é decidida assim.

Pontos fracos deste AZ:

  • A sua inconsistência. É uma equipa capaz de ganhar 3 ou 4 jogos seguidos e perder outros 3 ou 4 seguidos.
  • Dois centrais duros de rins (Nick Vergiever e Jeffrey Gouweleeuw) fortes no jogo áereo mas com muitas dificuldades para travar avançados rápidos, caso de Lima e Rodrigo.

Pontos fortes:

  • Muita rapidez na frente de ataque – O extremo Roy Beerens é um jogador rapidinho e com uma capacidade de cruzamento fantástica. É a estrela da companhia. Em conjunto com…
  • A dupla de médios centro – Viktor Elm, um conhecido nosso. Alinhou contra a selecção portuguesa no passado mês de Novembro e Nemanja Gudelj, um conhecido dos sérvios que alinham na equipa encarnada. Este sérvio de 22 anos, contratado no verão passado ao NAC Breda, é o grande maestro desta equipa.

Outros jogos da liga europa:

Lyon vs Juventus – O Olympique Lyonnais será presa fácil para a equipa de Turim. Apesar de Alexandre Lacazette estar em grande forma e da dupla de centrocampistas da equipa lionesa ser do melhor que se encontra pela Ligue 1 (Grenier e Gourcouff), a defensiva do Lyon tem jogos em que é como passar a faca na manteiga.

Basel vs Valência – A equipa suiça será um adversário tenebroso para a equipa de Pizzi. É uma equipa bastante segura defensivamente (destaque para o sueco Behrang Safari na direita e para o central Fabian Schar), com um meio campo muito activo (David Degen, Marcelo Dias, Valentin Stocker, Fabian Frei) com um jogo orientado para a grande referência ofensiva da equipa, o veteraníssimo Marco Streller.

quem o diz é Cesare Prandelli

Leio na Marca:

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Folgo em saber que o seleccionador italiano pensa exactamente o mesmo que eu, e que até tinha lugar para o jogador da Fiorentina na selecção italiana caso o pudesse convocar.

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Mais…

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Para o Seleccionador italiano Iniesta é o melhor do mundo. Messi é extremamente importante mas o jogador mais fulcral dentro da equipa blaugrana é de longe Iniesta. Quando está mal, a equipa está mal. Quando está bem, toda a equipa está bem.

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A 100 dias do mundial, esta entrevista para o jornal espanhol também serviu para revelar que o seleccionador italiano não nos toma como favoritos à vitória no torneio brasileiro, cotando-nos abaixo da Colombia, da Bélgica e do Uruguai. Com toda a razão. Se o colectivo já é escasso, se o individual de Cristiano Ronaldo falhar no Brasil, bem que podemos encomendar uma eliminação precoce na primeira fase ou nos oitavos.

 

Da Champions #7

Coube em sorteio ao City of Manchester (Etihad Stadium depois do patrocínio celebrado entre o clube e a companhia aérea cujo proprietário é o mesmo) receber o primeiro jogo dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Manchester City e Barcelona disputaram aquele que era, logo ao início, o mais esperado duelo da ronda. Com uma exibição bastante inteligente, o Barcelona soube capitalizar os erros defensivos cometidos pela equipa de Manuel Pellegrini e saiu de Manchester com um resultado que lhe pode desde já garantir a passagem para a próxima fase da prova.

As duas equipas entraram em campo com a moral em alta, fruto das vitórias obtidas durante o fim-de-semana. O City venceu de forma categórica o Chelsea de Mourinho por 2-0 para a Taça de Inglaterra neste mesmo terreno enquanto o Barcelona, no seu reduto, goleou o Rayo Vallecano por 6-0 num autêntico vendaval ofensivo.

Das respectivas partidas a contar para competições domésticas, poucas alterações ao onze foram realizadas por parte de Manuel Pellegrini e Tata Martino. O primeiro optou por colocar o argentino Martin Demichelis no eixo defensivo ao lado do belga Vincent Kompany. Antevendo a opção de Tata Martino na colocação de Lionel Messi como falso ponta-de-lança, com a inserção do argentino no onze, Pellegrini tentou tirar partido do profundo conhecimento que o veteraníssimo central tem das movimentações que são executadas pelo seu compatriota e companheiro de selecção. Na esquerda do seu ataque, o chileno optou por colocar o sérvio Kolarov. Cabia portanto ao lateral-esquerdo habituado a fazer toda a ala nos tempos em que alinhava na Lazio, controlar as súbidas de Daniel Alves pelo flanco direito e, tentar ser um jogador vertical, isto é, um jogador capaz de ganhar a linha e central para a principal referência de ataque da equipa, o espanhol Alvaro Negredo. No lado direito, Pellegrini optou também pelo vertical Jesus Navas, colocando um trio no miolo composto por Yaya Touré e Fernandinho (com tarefas mais defensivas) e David Silva com a missão de organizar o jogo do Manchester City.Já Tata Martino fez 2 alterações em relação ao onze que tinha apresentado para o jogo do passado fim-de-semana. Mascherano recuperou o lugar no eixo da defesa ao lado de Piqué em virtude dos problemas físicos apresentados por Carles Puyol na 2ª parte do jogo contra o Rayo e Cesc Fabrègas entrou para o onze no lugar de Pedro Rodríguez. Neymar ficou no banco. Regressado de lesão, o brasileiro seria utilizado pelo técnico argentino na 2ª parte do jogo contra o Rayo Vallecano. O mesmo viria a acontecer na partida desta noite.
O treinador argentino optou por dispor a equipa no habitual 4x3x3 com o trio do meio-campo composto por Sergio Busquets, Xavi e Cesc Fabrègas, optando por colocar Alexis Sanchez na direita, Iniesta na esquerda e Messi como falso ponta-de-lança. Acossado por Demichelis na primeira parte, o astro argentino viria a recuar bastante no terreno para vir buscar jogo.

Nos primeiros minutos da partida do City of Manchester, a equipa catalã tratou de colocar a sua imagem de marca: a circulação de bola. Os visitados dispuseram-se em campo com um bloco bastante baixo, com uma atitude bastante expectante (deixando o Barça executar o seu jogo de circulação a seu belo prazer no meio-campo) e com as linhas muito unidas de forma a não dar espaços à equipa adversária. Desde logo se denotou que a equipa catalã iria tentar explorar qualquer erro defensivo da equipa de Manchester através de lançamentos longos para as costas da defesa. Por várias vezes Messi veio buscar jogo atrás de forma a arrastar consigo o implacável Demichelis (esteve soberbo na marcação ao seu colega de selecção na primeira parte; por 3 ou 4 vezes quando a bola era passada para Messi, antecipou-se e não permitiu que o seu compatriota pudesse receber e tocar a bola para as contas da defesa inglesa onde apareciam em rápidas diagonais Alexis Sanchez, Iniesta ou Fabrègas).
Recorrendo à sua letal pressão alta, os catalães não deixaram os jogadores da casa ter posse de bola: sempre que recuperavam a bola, os Citizens tentaram sair em transição rápida, modelo que lhes foi categoricamente negado pelos culés nos primeiros minutos de jogo. Sem grandes soluções de jogo, os pellegrini boys acabaram invariavelmente por praticar um jogo directo para Alvaro Negredo. O ponta-de-lança esteve muito combativo na primeira parte, causando até algumas dores de cabeça à dupla de centrais do Barcelona. Na 2ª parte, com a expulsão de Demichelis, com o recuo da equipa em situação de inferioridade númerica, o espanhol não iria receber tanto jogo, sendo substituído pelo internacional bósnio Erin Dzeko.

Para os caros leitores, terem noção do domínio exercido pelo Barcelona nos primeiros 13 minutos, uma estatística lançada pela transmissão da UEFA dava conta de uma posse de bola de 73% (141 passes) para o Barcelona contra 27% (41 passes) do Manchester City.

A partir deste preciso momento, o City libertou-se das amarras que o jogo de posse do Barcelona estava a criar. Com bastante participação no jogo do construtor de jogo de serviço (David Silva) a equipa foi tentando explorar hipóteses nas alas. Com o crescimento da equipa no jogo, a primeira oportunidade de golo iria pertencer aos visitados quando aos 18″ Kompany fez um passe entre linhas para David Silva e o antigo jogador do valência fez um passe a rasgar pela zona central para a desmarcação do seu compatriota Alvaro Negredo. Pressionado por Piqué, o antigo avançado do Sevilla entrou na área, tirou o seu colega de selecção do caminho e já com pouco ângulo tentou bater Victor Valdés com um remate picado. A bola acabaria por tomar o efeito contrário da baliza até ao alívio da Dani Alves junto ao poste contrário. A equipa de Pellegrini dava aqui o primeiro sinal que não estaria disposta a passar uma partida inteira a ver o Barcelona circular bola no seu meio-campo.

O lance de Negredo abriu o jogo. A circulação de bola executada pelos jogadores do Barça tornou-se mais rápida e mais objectiva. As linhas do City subiram e os médios defensivos Yaya Touré e Fernandinho tentaram pressionar mais alto e obrigar o meio-campo do Barça a jogar mal. Uma das grandes conquistas que o City tinha para este jogo já estava mais ou menos concretizada: com bola, a equipa ia conseguíndo superar o suplício montado pela tradicional pressão alta executada pelos catalães. O jogo tornou-se mais faltoso. Aos 22″ Clichy conseguiu arrancar o primeiro amarelo da partida para Daniel Alves. O brasileiro foi obrigado a recorrer várias vezes à falta para travar as investidas do lateral e do seu companheiro de flanco Kolarov. Aos 24″, após nova falta do brasileiro no flanco, David Silva levantou para a área onde apareceu Kompany a tentar cabecear. Pouco lesto a sair dos postes, Valdés não conseguiu socar a bola e o belga conseguiu dar um toque para as imediações da baliza. Corajoso depois do erro, seria o guarda-redes espanhol a emendar o erro cometido aquando da saída dos postes. No entanto, Jonas Eriksson já tinha assinalado falta do central belga sobre o guarda-redes.

O City vivia, entre os 20 e os 30 minutos, o seu melhor momento na partida. Silva e Negredo tentavam combinar em vários lances. Com fantásticas trocas de bola, o trio do meio-campo dos citizens colocava os jogadores do Barça a cheirar a bola, situação bastante inconfortável para o jogo da equipa catalã. Apesar da posse de bola demonstrada no primeiro parcial da partida, o Barcelona não efectuou qualquer remate à baliza defendida por Joe Hart na primeira meia-hora de jogo e o melhor que conseguiu até então foi uma combinação entre Iniesta (na esquerda) e Cesc Fabrègas em zona central com o primeiro a ser demasiado lesto dentro da área. O talentoso médio ofensivo do Barcelona tentou adornar o lance e acabou saneado com um impiedoso corte de Kompany. Pelo meio, os homens de Tata Martino reclamaram uma bola no braço de Clichy em cuja repetição oferecida pelo realizador da transmissão televisiva não consegui descortinar o nível de intencionalidade. O primeiro remate do Barcelona seria executado aos 31″ por Lionel Messi à entrada da área, sem grande perigo para a baliza de Joe Hart. No minuto seguida, Xavi apareceu bem a rematar de meia distância para defesa a dois tempos do internacional inglês. A bola disferida do maquinal pé direito do centrocampista espanhol levava bastante efeito.

Sem ala direita – Até à primeira meia-hora de jogo as equipas funcionaram muito pouco pela ala direita. Zabaleta limitava-se a defender as investidas de Iniesta pelo flanco esquerdo enquanto Jesus Navas passava por completo ao lado do jogo. Do outro lado, Kolarov e Clichy cumpriam os propósitos incutidos por Pellegrini ao dar muito trabalho defensivo a Daniel Alves. À semelhança de Navas, Alexis Sanchez também passava ao lado da partida.

Cerebrais – David Silva de um lado, Iniesta do outro. O primeiro fez uma exibição fenomenal durante toda a partida. Rápido de processos, simples pensou, simples executou. Foi ele que fez girar todas as investidas dos citizens na partida. O segundo tentou neste primeiro tempo acelerar o jogo do Barcelona. Quando o fez, conseguiu desequilibrar. Tentou por várias vezes solicitar Messi no centro do terreno. Martin Demichelis podia dizer que na primeira parte meteu la pulga completamente no bolso. Na segunda parte, borrou a pintura toda com a grande penalidade cometida sobre o argentino. Nas raras vezes em que o argentino pegou a bola no centro como gosta e conseguiu executar as suas rápidas arrancadas, preferiu jogar para as alas em vez de tentar o remate. Não conseguiu acrescentar valor ao jogo ofensivo da equipa.

Ao intervalo o 0-0 justificava-se apesar da única oportunidade de golo ter pertencido ao Manchester City.

Nos balneários, Pellegrini deverá ter pedido mais (e mais rápida) circulação de bola aos seus jogadores. Nos primeiros 3 minutos da segunda parte, os citizens aceleraram a circulação de bola e não deixaram os jogadores culés tocar na redondinha. O jogo transversal de flanco a flanco que os citizens tentaram fazer no arranque da 2ª parte estava a ser interessante pelo prisma da circulação, mas, em contrapartida, estava a ser pouco vertical e pouco objectivo.

messi

Cansados de ver a equipa de Manchester circular de flanco a flanco, os catalães trataram de recuperar o esférico e ensinar como se faz: Messi pegou na batuta na zona central e acelerou o jogo. Aos 49″ serviu Cesc Fabrègas na esquerda (rodou posicionalmente com Iniesta no início do 2º tempo) mas o seu colega de equipa não conseguiu dominar bem a bola.
Aos 52″ iria dar-se um dos momentos do jogo: Jesus Navas perdeu para Sérgio Busquets no meio-campo ficando a reclamar falta junto do sueco Jonas Erikson. Andrés Iniesta pegou na bola, acelerou, viu Messi a ganhar as costas de Demichelis pela primeira vez na partida e colocou a bola na perfeição para a desmarcação do seu colega de equipa. Tendo perdido em velocidade para o seu compatriota, o antigo central do Bayern de Munique e Málaga não teve outra acção senão rasteirar o jogador do Barcelona. Jonas Erikson viu e apontou para a marca de grande penalidade. De seguida, dirigiu-se a Demichelis e expulsou justamente o argentino. Na repetição da jogada, apercebi-me que Navas tinha razão: Busquets atingiu o extremo espanhol com o joelho.
Na marca de onze metros, o argentino esperou que Joe Hart se balanceasse para o lado esquerdo para aplicar um subtil remate para a zona central. Estava inaugurado o marcador no City of Manchester.

A perder por 1-0, Pellegrini viu-se obrigado a colocar temporariamente Fernandinho a central. 5 minutos depois haveria de efectuar as primeiras substituições do jogo ao tirar Kolarov para a entrada de Joleon Lescott e Navas para a entrada de Nasri. A entrada do jogador francês iria dar mais velocidade e objectividade ao jogo dos citizens.

A ganhar por 1-0, a equipa de Tata Martino tentou de congelar o ritmo de jogo com o seu habitual jogo de contenção. A equipa de Manchester acusou o golo nos minutos que se seguiram. Com alguns passes falhados em zonas proibidas, os citizens não conseguiam articular de forma adequada as suas transições. Seria sol de pouca dura. Aos 61″ David Silva solicitou Nasri na direita. Com o seu toque de classe, o francês tirou Jordi Alba do caminho, deu para Alvaro Negredo na zona central e foi receber o toque de calcanhar do avançado à entrada da área. Tentou o remate de primeira mas a bola seria bloqueada por Mascherano. Na repetição, vi que Fernandinho aparecia desmarcado a pedir bola dentro da área. Se o francês tivesse agido com mais calma e tivesse endossado a bola ao seu colega de equipa, poderia estar aqui a escrever a jogada do golo do empate do Manchester City. Na rapidez do lance, optou pela tentativa de remate.

Depois desta investida do Manchester City, apercebendo-se do risco que corriam caso os citizens tentassem partir o jogo e subir no terreno, os jogadores do Barça voltaram a congelar o jogo. Aos 66″ Daniel Alves deu para o meio onde apareceu Xavi a rematar novamente, desta vez por cima da baliza de Joe Hart. No minuto seguinte, os dois voltaram a tabelar no flanco direito com o veteraníssimo centrocampista a desmarcar o brasileiro na cara do guardião inglês. Dani Alves chutou cruzado com a bola a rasar o poste da baliza de Hart.
O jogo estava aberto. Aos 69″ ao receber no miolo, David Silva viu que não tinha grandes linhas de passe. Vindo num enorme pique de velocidade pela esquerda, Clichy recebeu o passe, arrancou pela esquerda mas não conseguiu melhor do que um cruzamento para as mãos de Valdés.

73″ – Entra Neymar para o lugar de Alexis Sanchez. Ao princípio, o brasileiro vai-se posicionar na direita do ataque do Barcelona. Pellegrini coloca Dzeko em campo no lugar de Negredo de forma a poder autorizar a equipa a efectuar um jogo mais directo. A equipa de Manchester voltou a cerrar os dentes quando aos 76″ a bola vai do flanco esquerdo ao flanco direito. Zabaleta dá de primeira para a entrada de David Silva na área na zona central e o jogador espanhol mata a bola no peito e remata forte para defesa de Victor Valdés. Lance belíssimo de futebol. Nesta fase do jogo, o empate justificava-se pelo empenho demonstrado pelos jogadores de Pellegrini em inferioridade númerica, em particular de Fernandinho, um autêntico pulmão no meio-campo dos homens de Manchester.
O remate de Silva seria o último suspiro da equipa inglesa na partida.

O Barça voltaria a puxar os cordelinhos e a aplicar a sua receita: a equipa culé ameaçou quando Messi se desmarcou novamente nas costas dos centrais do City e pecou na cara de Joe Hart ao passar a bola para… Gerard Piqué, o novo 9 da equipa catalã! O assistente de Jonas Erikson haveria de assinalar (mal) offside ao argentino. Nos minutos finais, da ameaça, a equipa catalã concretizou quando Daniel Alves sentenciou a partida (e quiçá a eliminatória) para gaudio dos milhares de adeptos blaugrana que viajaram de Barcelona até terras de Sua Majestade.

Como diz o povão, vai ser necessário ao Manchester City suar as estopinhas todas no jogo de Nou Camp para conseguir a remontada.

 

 

O que eu ando a ver #37

Nou Camp – Autêntico hino ao futebol de ataque. O modelo de jogo inserido no Barcelona pelos treinadores holandeses (Mitchels, Cruyff, reaproveitado já neste século por Rijkaard) aperfeiçoado por Guardiola e Tito Villanova continua intacto (excelente circulação de bola, pressão alta, flanqueamento q.b, as deliciosas triangulações entre Xavi, Iniesta e Messi e as arrancadas de Messi pelo canal central). A grande diferença entre a era Guardiola e filosofia incutida por Tata Martino reside na ambição que a equipa actualmente demonstra. Na era Guardiola, assim que marcava o primeiro golo da partida, a equipa retirava o poder de resposta ao adversário através de longos momentos de contenção e circulação de bola. Marcando um segundo golo sem resposta, indiferentemente do tempo de jogo em que se encontrasse a partida, começava o jogo de contenção como controlo dos acontecimentos e gestão de esforço do plantel. Com Tata Martino, a equipa aproveita o que de bom se retira do jogo de contenção (adormecer a equipa contrária) e procura marcar o máximo de golos possíveis. Facto que privilegia sobretudo quem paga bilhete para ver um espectáculo de 90 minutos.

Na retina da goleada infligida ao Rayo Vallecano por 6-0 fica a chapeleta de Lionel Messi na primeira parte e a perfeição atingida pela equipa nos processos de construção no golo de Pedro Rodriguez no 2º tempo. A fluída circulação de bola neste golo parece fácil mas não é. Os jogadores do Barcelona parecem jogar de olhos fechados mas não jogam. Para chegar até aqui, Pep Guardiola passava semanas inteiras a treinar exclusivamente o passe e a circulação de bola. Daniel Alves chegou mesmo a afirmar que no clube existiam treinos de 2 horas dedicados exclusivamente à automatização destes mecanismos de jogo. Os resultados estão, como se pode ver semana após semana, bem à vista.