Superbock! Fresquinha! #73

paulo fonseca

Algumas palavras sobre o comando do despedido Paulo Fonseca e sobre o seu sucesso, ainda que interino, Luis Castro.

Quanto a Paulo Fonseca – Ao contrário do argumento que muitos amigos me tentaram vender aquando da sua contratação, nunca acreditei que Paulo Fonseca tivesse sucesso no Porto. Sempre achei que, com apenas 2 épocas enquanto treinador de uma equipa profissional de futebol (apenas 1 na primeira liga), apesar de, muitas vezes, o Porto vencer literalmente sem treinador, Paulo Fonseca pouco ou nada tinha mostrado para ocupar cargo com tamanha responsabilidade.

Defendo que o 3º lugar conquistado na Liga ao serviço do Paços de Ferreira foi sobrevalorizado por toda a comunidade do futebol português. Não querendo subvalorizar o futebol praticado pelos pacenses na época passada (verdade seja dita, a equipa era mortífera a jogar em contra-ataque), tal pole deveu-se sobretudo à incompetência demonstrada por Sporting e Sporting de Braga. Claro está também que uma equipa que conseguiu o seu objectivo para a temporada bastante cedo (a manutenção) tendeu naturalmente a galvanizar-se para procurar algo mais que a manutenção. Foi exactamente aquilo que se sucedeu na capital de móvel. Atingido o objectivo inicial, a equipa livrou-se da pressão inerente aos seus objectivos e aos seus estatutos e, vitória após vitória, derrota após derrota dos naturais candidatos ao 3º lugar, foi acreditando jornada após jornada, vitória após vitória que poderia escrever uma página dourada na história do clube. No entanto, a mensagem subliminar que o Paços de Ferreira passou para a comunidade foi a de um treinador competentíssimo, estudioso do futebol, moralizador, capaz de ressuscitar para o futebol o mais incorrigível dos futebolistas, como foi o caso de Josué, em suma, um dos big things do futuro. 

E o FC Porto, decidido a fazer sair Vitor Pereira pela porta grande depois de ter ganho dois campeonatos da forma que ganhou, acreditou que Fonseca seria o homem capaz de reconsolidar o estatuto nacional do FC Porto e ambicionar uma grande epopeia europeia.

Paulo Fonseca chegou ao Dragão ao mesmo tempo em que o clube decidiu vender dois dos mais valiosos jogadores do plantel e um jogador cuja ascendência nesta temporada seria mais que previsível (Christian Atsu). Bastará apenas dizer que o primeiro tinha sido o verdadeiro motor do Porto nas últimas conquistas. Nos primeiros meses de trabalho, vencendo para a liga, Paulo Fonseca conseguiu disfarçar não só as carências do plantel que dispunha assim como a intranquilidade vivida no seio do reino do Dragão. Desde logo denotei que este Porto apresentava inúmeras fragilidades, mais fragilidades que o normal. Não só nas soluções das quais não dispunha no seu plantel (um 10 que conseguisse pensar o jogo, um extremo desiquilibrador, um central rápido) como na disposição de alguns jogadores em permanecer no clube (Fernando, Fucile) como nos inúmeros casos em que a psicologia do clube não estava a funcionar (Marat Izmailov). Tudo somado tornava a vida do treinador extremamente complicada, mas…

Paulo Fonseca entrou a matar. O discurso articulado pelo treinador nos primeiros meses era um discurso pomposo, um discurso à Porto, um discurso vindo de alguém que a julgar, já tinha sido plenamente vitorioso na sua carreira. O discurso de Fonseca era extremamente confiante e dava quase como adquiridos os 3 pontos antes da partida se jogar. Era ofensivo. Paulo Fonseca não se coibia de responder à letra a declarações de Jorge Jesus ou atacar constantemente o treinador do Benfica. Rapidamente, com as derrotas no plano europeu, passou a ser o discurso do coitadinho – “jogámos bem e o resultado foi injusto para o que jogámos. Fomos melhores mas a outra equipa foi lá uma vez e aproveitou os nossos erros” – e da teoria da conspiração: “a tal cabala contra o FC Porto, o tratamento injusto e diferenciado por parte da imprensa” – imprensa essa que determinantemente se baldava ao acto de, aproveitar para escrever, todos os escândalos que iam, paulatinamente, sendo tornados públicos. A medo e medindo bem as palavras, alguns iam tentando explorar as fugas de informação (nada habituais) oferecidas pela estrutura do FC Porto.

Em Janeiro, Lucho saiu. Se até então Paulo Fonseca estava a revelar dificuldades para acertar com a fórmula do meio-campo,experimentando Herrera, Defour e Carlos Eduardo sem que um destes tivesse o rendimento esperado, a saída do argentino, motivada pelo dinheiro fresco oferecido pelos árabes, aniquilou metade da ofensividade do plantel portista. A outra metade foi claramente abafada pela quebra de rendimento dos laterais Danilo e Alex Sandro, de forma clara, os dois jogadores mais ofensivos deste FC Porto. Quando uma equipa tem como os dois grandes motores ofensivos os laterais, não pode, no futebol moderno, aspirar a nenhuma conquista.

Com as derrotas, a mensagem deixou de passar. Se há factor que não trás confiança aos jogadores para executar a sua profissão, esse factor são as derrotas. Paulo Fonseca tornou-se confuso, bizarro. Revoltado em certos jogos. A gaffe cometida na conferência de imprensa de antevisão do jogo contra o Eintracht de Frankfurt assim como aquelas que cometeu no pós-jogo, foram a morte do artista que, pelas minhas contas, foi, desde que tenho memória futebolística, o 4º treinador despedido por Jorge Nuno Pinto da Costa.

O futuro de Paulo Fonseca – O Porto tem destas coisas. Tanto pode ser o clube exportador de treinadores (como o foi com muitos; Mourinho, ABV, António Oliveira e de certa maneira com Vitor Pereira) como pode ser o fim da linha para quem não consiga vencer. Se repararmos, dos 4 treinadores despedidos a meio da temporada por Jorge Nuno Pinto da Costa:

  • Octávio Machado nunca mais orientou nenhum clube de futebol.
  • Victor Fernandez treinou o Zaragoza de 2006 a 2008, cumpriu um hiato de dois anos sem treinar, orientou o Betis por uns meses, cumpriu novo hiato de 3 anos e agora está a orientar o Gent da Bélgica.

Gigi Del Neri foi o único que ainda teve algum futuro depois do Porto, orientando entre outros a Roma, o Palermo e a Juventus sem obter resultados de maior.

O interino

Luis Castro

Se existe personalidade no futebol de quem posso escrever com conhecimento de causa, essa pessoa é Luis Castro. Durante a minha infância vi Luis Castro jogar vezes sem conta ao serviço do clube da minha cidade, o Recreio Desportivo de Águeda, clube ao qual chegou já no final da sua carreira em 1990, foi capitão durante várias épocas na 2ª divisão B e na 3ª divisão e começou a sua carreira de treinador em 1998, tendo alcançado até no primeiro ano a subida à 2ª divisão B. Ainda hoje sou amigo da sua filha.

Como jogador lembro-me de ver Castro a central. Segundo o que sei, só o foi no Águeda já no final da sua carreira. Era duro e certinho, fazendo da sua experiência no futebol (jogou vários anos no União de Leiria e no Vitória de Guimarães) o seu maior trunfo. Batia muito bem livres à entrada da área. Nunca mais me esqueço de um golo de livre numa goleada ao Oliveira do Bairro em 95 ou 96 por 5-0 ou 5-1 se não estou em erro, num jogo em que chovia imenso. Lembro de ter sido um golo quase perfeito.

Enquanto treinador, foi muito injustiçado pela direcção e pelo povo de Águeda. Em 1998\1999 conseguiu terminar a série C do campeonato da 3ª divisão no 2º lugar, apenas atrás do rival Oliveira do Bairro. A repentina subida de divisão e a propensão que o clube tinha nas suas camadas de formação, levaram na altura as gentes de Águeda a pensar que a gracinha poderia ser repetida no ano seguinte na segunda Divisão B. Para o efeito, o clube investiu em 5 ou 6 jogadores com estatuto nessa divisão, um deles que até tinha sido o melhor marcador da zona centro, para colmatar a saída do brasileiro Roger, o melhor marcador do futebol português na temporada anterior para o Sporting de Espinho, equipa que na altura tinha ambições na 2ª liga. Castro acabou por sair a meio da época e o Recreio desceu. Apesar do treinador ter ainda orientado alguns clubes da região, sempre pensei que o seu futuro não seria nas distritais. Até que apareceu a oportunidade Penafiel e o treinador fez um brilharete com os penafidelenses.

Eis que surge a oportunidade de coordenar a estrutura de formação do FC Porto. Não sei se por falta de ambição, bom contrato ou simples comodidade, Castro aceitou o desafio e bloqueou a hipótese de crescer no futebol português. Não tenho a menor dúvida que poderia chegar facilmente a orientar um grande caso continuasse a trilhar o seu caminho. O futuro escreve-se muitas vezes por linhas tortas e eis que, hoje, Castro assume interinamente o FC Porto depois de um excelente trabalho quer na formação do clube da invicta quer na equipa B dos dragões onde para além dos resultados que são bons de ver, conseguiu potenciar imensos jogadores da formação do Porto (Rafa, Tozé, Podstawski, Kadu, Mikel), todos eles capazes de se afirmar na equipa principal do clube.

Desconfio que não fique mais do que 1 ou 2 jogos. Existem muitos pretendentes ao trono: Marco Silva, AVB, Domingos Paciência. Contudo, não seria mal jogado deixar o treinador mostrar todo o seu potencial até ao final da época até porque esta está perdida. Quem sabe se o treinador não será a melhor opção que o Porto tem para o seu comando técnico?

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