O que eu ando a ver #46

O Estádio De Kuip que tantas boas recordações dá ao futebol português (foi ali que Sérgio Conceição marcou 3 à Alemanha no Euro 2000 e à Holanda na ronda de qualificação para o Mundial 2002 na vitória de Portugal frente aos Holandeses por 2-0; naquele celebre golo em que alguém apitou na bancada e a defesa laranja parou para deixar passar o então jogador do Inter; foi ali que em 2005, o Sporting bateu o Feyenoord e qualificou-se para os oitavos-de-final da Taça UEFA da qual viria a ser finalista) recebeu mais um clássico do futebol holandês: a recepção do Feyenoord de Ronald Koeman ao tricampeão holandês em título, o Ajax de Frank De Boer.

Estando o Ajax com 9 pontos à maior sobre a equipa de Roterdão, o jogo da apelidada “banheira de Roterdão” assumia um carácter decisivo para as aspirações do Feyenoord não só ao título da Eredivisie (ficaria a 6 pontos dos alfaiates a 8 jornadas do fim) como ao objectivo menor a que se propuseram os jogadores de Koeman: voltar à Liga dos Campeões. A equipa de Roterdão já não é campeã há 15 anos (o último título holandês foi na época 1998\99) e já não marca presença na maior prova do futebol europeu desde a temporada 2002\2003. Na presente temporada não conseguiu passar a 3ª pré-eliminatória da prova.

Por sua vez o Ajax, líder, vinha de uma eliminação humilhante frente aos austríacos do Red Bull Salzburg com um agregado final de 6-1 (0-3 em casa; 1-3 naquela cidade austríaca).

Enquanto Ronald Koeman poderia contar com a espinha dorsal da sua equipa (Graziano Pellè, Boetius, Tony Vilhena, Bruno Martins Indi, Lex Immers), o seu adversário na soalheira tarde de domingo, Frank De Boer, não podia contar com 3 jogadores: o trio de dinamarqueses do plantel, o lateral Nicolas Boilesen, o médio Lasse Schone e o avançado Viktor Fischer.

O início da partida no De Kuip disputou-se a um ritmo altíssimo, não obstante do futebol muito batalhado das duas equipas nos primeiros 10 minutos. A equipa do Ajax entrou muito intranquila na partida e não conseguiu nos primeiros minutos por a bola no chão. Ao nível de organização de jogo, o sul-africano Thulani Sereno nunca conseguiu conseguiu acalmar e espraiar o jogo de ataque do Ajax. Só na segunda parte, quando foi substituído pelo holandês (de origem cabo-verdiana) Lerin Duarte é que o Ajax, apesar de ter vencido por 2-1 (os golos nascem em momentos de jogo em que o Feyenoord dominava a partida) conseguiu ter algum nexo na construção ofensiva. O Feyenoord por sua vez iniciou o jogo a pressionar a todo o terreno de forma a obrigar a equipa orientada por Frank de Boer a jogar a mal e a cortar jogo aos criativos da equipa, o espanhol Bojan Krkic (no flanco esquerdo) e Siem de Jong, no jogo de domingo numa posição mais avançada como falso ponta-de-lança.

Nos primeiros 15 minutos, as equipas deram pouco espaço para jogar e por várias vezes assistimos a lances de autêntico pingue-pongue entre a linha média das duas equipas. A quantidade de cabeceamentos mandados para o ar e de passes desviados foi alta neste primeiro sexto do jogo. A primeira jogada de perigo aconteceu aos 7″ quando o talentoso Ricardo Kishna (mais um grande talentoso da fabulosa escola do Ajax) centro da esquerda para a entrada da área onde apareceu Bojan Krkic a rematar para uma intercepção do central do Feyenoord Stefan de Vrij. O central da equipa de Roterdão acabaria por fazer uma grande exibição: por várias vezes deu o corpo ao manifesto a remates dos jogadores do Ajax e na segunda parte haveria de fazer um corte providencial ao islandês Sightorsson (entrado a meio do 1º tempo para o lugar do lesionado Bojan Krkic) quando este tinha todas as condições para almejar a baliza defendida por Erwin Mulder e matar a partida com o 3-1.

No minuto seguinte, o avançado italiano do Feyenoord Graziano Pellè (foi uma autêntica dor de cabeça para a dupla de centrais do Ajax Veltman e Moisander; nota-se que o futebol do Feyenoord tem nuances em que está extremamente mecanizado para o forte jogo aéreo do avançado; no jogo de domingo ganhou praticamente todos os duelos aéreos que travou com os centrais da equipa de Amesterdão) foi à ala esquerda resgatar uma bola, com um toque de classe deu para trás e desmarcou o extremo Tony Vilhena que por sua vez centrou para a pequena área para um corte de Niklas Moisander. Na sequência do lance, Lex Immers teve tudo para marcar o primeiro na pequena área mas falhou rotundamente no esférico.

O lance de Immers fez crescer o bruá vindo das bancadas e os jogadores do Feyenoord empolgaram-se. A equipa de Roterdão começou a explorar o seu flanco direito e a boa envolvência entre lateral (Janmaat) e ala (Ruben Schaken). Aos 14″ mais um canto para a equipa de Roterdão obrigou Cilessen a sair a punhos quando Graziano Pellè tentava encostar. Perante a passividade da defensiva do Ajax nesse lance, a bola ressaltou para o coração da área e Bruno Martins Indi, o lateral do Feyenoord nascido no Barreiro, voltou a falhar no esférico.

O Feyenoord voltou a estender o seu domínio na partida perante um Ajax amorfo no ataque, inconsequente e bastante retraído no campo. O Feyenoord voltou a justificar a vantagem quando à passagem do minuto 32 Boetius (grande exibição deste jogador no primeiro tempo numa posição mais interior; no primeiro tempo pautou-se por uma acção inteligente, ora acelerando o jogo pelo miolo quando a equipa encontrava brechas no miolo do Ajax, ora entrando em acções individuais no 1×1 de forma a conseguir progredir com bola quando  as linhas do Ajax estavam mais recuadas; esteve brilhante na construção da jogada do primeiro golo da partida; na segunda parte na ala quando Koeman o trocou com Tony Vilhena desapareceu da partida) lançou a bola para as costas do central Joel Veltman e este perante a pressão de Lex Immers não só falhou a recepção da bola já dentro da área como a colocou nos pés de Pellè. O italiano viu Cilessen adiantado e tentou um remate em força, correspondendo o guarda-redes do Ajax com uma fantástica defesa para canto.

Tacticamente achei interessante as movimentações defensivas do Ajax. Com Daley Blind na esquerda a adoptar uma propensão bastante ofensiva, sempre que o lateral subia no terreno, Christi Poulsen recuava para central e Niklas Moisander preenchia o espaço deixado pela subida do lateral. O mesmo acontecia quando o lateral derivava para o centro do terreno de forma a estancar o jogo produzido por Boetius e Jordy Clasie ou quando simplesmente acompanhava as movimentações para o centro do terreno de Ruben Schaken.

pellé

Tanto foi o cântaro à fonte que acabou por partir. O golo inaugural da partida haveria de chegar ao 29″. Com Niklas Moisander a ser assistido fora do terreno pelo staff médico da equipa de Amesterdão devido ao facto de estar a sangrar da boca (num choque com Pellè num lance pelo ar), o Feyenoord aproveitou para acelerar o jogo e construir a primeira vantagem na partida: Boetius recebe a bola no miolo, rodopia para se livrar do controle defensivo de um adversário, descobre Bruno Martins Indi a subir pelo flanco e o lateral, aproveitando a deslocação do lateral-direito do Ajax Ricardo Van Rhijn para o miolo de forma a ajudar os seus colegas de defesa centra como todo o à-vontade para o primeiro poste onde aparece Pellè a antecipar-se a Joel Veltman e a cabecear em arco para o fundo das redes de Cilessen. Nas imagens nota-se que o avançado italiano pediu a bola para o 1º poste e Bruno Martins Indi correspondeu na perfeição. O lateral internacional pela selecção holandesa haveria de fazer um jogo bastante equilibrado, cometendo apenas um erro (se bem que poucos seriam os laterais do mundo que conseguiriam desarmar Kishna naquele lance) no golo do empate do Ajax.

A equipa de Amesterdão tentou responder logo de imediato. 3 minutos depois Kishna tentou um 1×1 em drible contra Martins Indi, o lateral ganhou o lance mas vindo de trás Van Rhijn centrou com força e apanhou Siem De Jong ao primeiro poste a tentar pentear a bola para o poste contrário. A bola acabaria por sair fora e esta era para já a melhor oportunidade do Ajax na partida. Poucos minutos depois Bojan Krkic haveria de ser tocado por Janmaat e consequentemente substituído, como aliás já tive oportunidade de realçar por Kolbein Sightorsson. O islandês tinha até este jogo 8 golos na prova. Com a entrada de Sightorsson, Siem de Jong passou temporariamente para o flanco esquerdo.

Quando todos pensavam que o Feyenoord iria, com toda a justiça, entrar nas cabines com a vantagem de 1-0, o Ajax haveria de marcar o golo do empate. Aos 44″ Ricardo Kishner faz um dos melhores trabalhos individuais da presente edição da Eredivisie quando recebe a bola no flanco direito à entrada da área perante a oposição de Martins Indi e com o seu pé de eleição, o esquerdo, faz uma vírgula que prega Indi ao relvado, puxa a bola para o pé direito antes dela ultrapassar a linha de fundo e serve no meio Sightorsson, mais rápido que os centrais de Vrij e Kongolo, que só teve de empurrar para o fundo da baliza de Mulders. Um golo à ponta-de-lança a coroar a melhor jogada do desafio.

Ao intervalo, justificava-se a vantagem do Feyenoord perante um incipiente, inofensivo e desarticulado ataque do Ajax.

O início do 2º tempo assemelhou-se de certa maneira ao início da partida só que ligeiramente mais faltoso de parte a parte. O Ajax entrou na 2ª parte com uma atitude mais ofensiva, se bem que não se pode dizer que ofensivamente o Ajax tenha feito um bom jogo porque não o fez. Acabou literalmente por ser mais feliz e mais eficaz na partida. Prova desse ligeiro incremento de atitude foi a jogada de Davy Klaasen na partida quando recebeu no flanco direito, entrou na área em velocidade e rematou cruzado ao poste da baliza de Erwin Mulder com o guarda-redes do Feyenoord completamente batido. Com a subida de rendimento de Davy Klaasen no jogo e com a entrada de Lerin Duarte aos 63″ o Ajax cresceu imenso na partida e teve pela primeira vez no jogo quem de facto o pensasse com rigor.

No início da 2ª parte desenrolaram-se várias faltas muito feias: a primeira quando Poulsen virou a perna de Lex Immers numa disputa de bola ao meio-campo que obrigou inclusive o jogador do Feyenoord a sair do campo a coxear. Nesse lance, o árbitro da partida avisou o dinamarquês. Os duelos entre Pellè e Moisander obrigaram por várias vezes o internacional finlandês a ter que recorrer aos braços para parar o italiano. Aos 50″ Jordy Clasie não foi de meias medidas e varreu Christi Poulsen. Acabaria por levar o primeiro cartão amarelo da partida.
O arbitro da partida esteve muito bem durante os 90 minutos, errando só num lance quando aos 53″ aproveitando uma complicação do sul-africano Thulani Serero ainda dentro do meio-campo do Ajax, Immers aproveitou uma dividida e desmarcou Boetius no flanco direito. O jogador de 19 anos tinha caminho aberto para correr para a área mas o fiscal-de-linha decidiu (mal) marcar fora-de-jogo quando, na repetição, observei que Joel Veltman e Daley Blind estavam a colocar em linha o jogador do Feyenoord. Aos 73″ só o realizador da partida terá visto a cotovelada de Pellé na cara de Veltman, lance que garantiria a expulsão caso o árbitro da partida, o internacional Bjorn Kuipers ou os seus assistentes tivessem visto.

O Ajax voltou a adoptar uma postura mais realista até porque o empate servia os seus interesses numa jornada em que a equipa de Amesterdão entrou em campo com conhecimento dos resultados dos seus mais directos adversários na geral: o empate do Twente em Utrecht e a vitória do Vitesse contra o Roda em Arnheim por 3-0, facto que deixaria as duas equipas a 6 pontos em caso de empate ou a 8 em caso de vitória. Sabendo que o empate na partida, iria deixar tudo na mesma em relação ao Feyenoord (9 pontos mais vantagem no confronto directo), empatar aqui seria de certa maneira amenizar as perdas e arredar mais um candidato ao título.

Koeman troca Boetius por Vilhena. O primeiro passa para uma posição mais interior enquanto o segundo vai para o lugar do extremo na esquerda. Koeman arriscou mas a aposta não foi ganha. O Feyenoord já não seria capaz de criar tanto perigo. Excepção feita na meia-hora final foi quando Boetius foi à linha e centro para Lex Immers que voltou a falhar no coração da área.

Como quem não marca sofre…

ajax

Entrou Lerin Duarte e o futebol do Ajax ganhou mais velocidade, maior profundidade e processos mais simples. Aos 69″ Daley Blind subiu no flanco esquerdo e cruzou para o centro da área onde apareceu Siem De Jong a cabecear para a defesa fácil de Mulders. O Ajax passou da ameaça à concretização quando aos 71″ Ricardo Kishna recebeu na direita perante a oposição de Bruno Martins Indi, flectiu para o miolo e desmarcou Lerin Duarte em velocidade pelo corredor direito. O recém entrado centrou à procura de Sightorsson e o lateral Janmaat cortou para canto, temendo que alguém estivesse nas suas costas o que não era o caso. O jogo pelo seguro custou caro ao lateral: Lerin Duarte bateu o canto para a área, Erwin Mulders ficou literalmente nas covas e a bola foi para o 2º poste onde apareceu primeiro Moisander a tocar e Jordy Clasie a levar a bola com a mão e depois, enquanto o finlandês clamava por uma grande penalidade, Joel Veltman tirou Lex Immers do caminho e atirou para o fundo das redes da equipa de Roterdão. Primeiro golo do jovem central de 22 anos na equipa senior do clube de amesterdão.

Dois minutos depois, a equipa de Frank De Boer poderia ter dado o golpe final da partida quando Lerin Duarte ganhou uma bola no meio-campo, fintou um adversário e meteu a bola rasteira para a entrada de Sightorsson pela área. Valeu o monumental e providencial corte de De Vrij (a repetição mostrou que o central tocou apenas na bola) perante os protestos do internacional pela Islândia.

O período ascendente da partida levou Ronald Koeman a mexer na partida. Aos 75″ reforçou o lado direito do ataque com a entrada de Michell Te Vrede para o lugar de Schaken, desaparecido da partida no 2º tempo. O “estreante” não começou com o pé direito pois viu um amarelo 2 minutos depois por uma entrada sem bola a varrer sobre Jasper Cilessen quando o guarda-redes tentava aliviar a bola após atraso de Moisander. Aos 78″ Koeman tenta refrescar o miolo com a saída de Jordy Clasie para colocar em campo Ruud Vormer. Frank De Boer responde com a entrada do rapidíssimo Lesley de Sá para a saída de Ricardo Kishna.

O Ajax aproveitou para se fechar e assim segurar a vantagem. Com as linhas bem compactas nos últimos 40 metros, os jogadores de Amesterdão tentavam ao máximo evitar a circulação de bola para as alas e a deposição de bolas para Pellè, principalmente pelo ar, processo ofensivo muito utilizado pelo Feyenoord visto que o seu ponta-de-lança raramente perde uma bola de cabeça, arrasta os centrais consigo e com os seus preciosos toques para as costas dos defesas coloca a bola em espaços onde os extremos podem entrar a finalizar.

Aos 82″, num desses lances característicos, Pellé salta com Veltman e o central do Ajax coloca a mão à bola. Kuipers marca livre à entrada da área para o Feyenoord mas Ruud Vormer remata contra a barreira. Koeman faz a última alteração e tira Jean-Paul Boetius por Goosens. O Feyenoord tenta o tudo por tudo. 1 minuto depois o lateral Daryl Janmaat flecte da direita para o miolo, combina com Vilhena, volta a receber e dá na área para Te Vrede que gira sobre Moisander e remata à figura de Cilessen. Aos 89″ Poulsen empurra Pellé e no livre, a 27\28 metros da baliza Goosens atira por cima da barra da baliza do Ajax. A última oportunidade do Feyenoord na partida haveria de ser já no último dos 3 minutos dados por Bjorn Kuipers quando, através de um canto batido na esquerda, Cilessen falha o salto e a bola sobra para o 2º poste onde Michell Te Vrede não consegue melhor que um cabeceamento por cima da barra.

O Feyenoord esteve melhor na partida, teve as melhores situações de golo mas foi uma equipa bastante perdulária perante uma equipa do Ajax que se limitou a aproveitar as melhores jogadas que construir durante o encontro. Contudo, a equipa de Roterdão foi extremamente combativa e pode orgulhar-se da sua prestação. Tem uma equipa jovem que ainda está a ser construída pouco-a-pouco mas, quem sabe, já para o ano poderá lutar taco-a-taco com este Ajax pelo título na Eredivisie.

 

 

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