imbecilidades

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A imagem mostra Kevin Prince-Boateng a fumar um cigarro e a beber uma cerveja antes de ir ao controlo anti-doping programado no final do último jogo do Schalke. O insólito levou o director-geral do clube alemão Horst Heldt a afirmar que o jogador estava simplesmente “a relaxar do stress da partida” – se o clube aceita, não sou ninguém para criticar…

Não deixa de ser caricato que uma cena do género aconteça poucos dias depois das declarações do médico-chefe da FIFA Jiri Dvorak. O dirigente da FIFA anunciou que todos os jogadores das selecções participantes serão controlados de surpresa antes do arranque da competição. O mesmo dirigente anunciou que o caso mais bicudo é o da selecção… portuguesa, a única que é sempre controlada de surpresa pela sua agência nacional antidopagem, a ADoP, antes de seguir marcha para as grandes competições internacionais

Dvorak deverá ter receio que, os controlos surpresa, causem indignação junto das delegações. Como tal, tomou de exemplo o que se sucedeu no estágio da Covilhã nas vésperas da participação da selecção nacional no Campeonato do Mundo da África do Sul em 2010, quando os “vampiros”, apelido pelo qual são conhecidos os elementos dessas mesmas agênciasem modalidades como o Atletismo ou o Ciclismo, irromperam pela unidade hoteleira onde estava instalada a delegação portuguesa, a altas horas da madrugada, para controlar toda a selecção, acontecimento que motivou a ira e a suposta agressão de Carlos Queiroz a um dos elementos da dita autoridade. A ADoP alegou que o seleccionador nacional agrediu física e verbalmente um dos elementos que iria fazer o controlo surpresa a alguns jogadores (entre os quais Nani) e o seleccionador nacional chegou a ser castigado por 6 meses. O TAS (Tribunal Arbitral do Desporto) anulou a decisão que suspendeu o treinador, obrigou a AdOP a indeminizar o actual seleccionador do Irão em 46 mil euros e os crimes (públicos) decorrentes do acto passaram para os tribunais civis.

Não deixa de ser uma imbecilidade de Jiri Dvorak enunciar a selecção nacional como um caso bicudo sabendo que a AdOP é uma das únicas agências nacionais de Antidopagem com poder para realizar controlos surpresas sobre todos os atletas nacionais. Coisa que faz constantemente. Ainda há poucos meses atrás, nas vésperas (e durante) da (a) última edição da Volta a Portugal apanharam Sérgio Ribeiro da Efapel-Glassdrive e o vencedor Alejandro Marque nas malhas do doping. Outra é por exemplo a agência Norte-Americana, a USADA, se bem que a USADA só acordou para esta realidade depois do escândalo em torno de Lance Armstrong. Tanto uma como a outra tem poder para comunicar às autoridades judiciais a posse de substâncias proibidas por parte dos atletas, cabendo depois às mesmas iniciar os procedimentos previstos pela lei.

No que toca à luta anti-doping, o ciclismo está um passo à frente de todas as modalidades visto que todos os atletas tem um passaporte biológico, isto é, um registo onde são anotados todos os controlos realizados e onde é monotorizada a carreira do ciclista. Por causa da realização desses mesmos registos, o ciclista é obrigado a comunicar à UCI o sítio onde está a treinar. A UCI pode enviar uma delegação da agência nacional respeitante ao país no qual o ciclista está a treinar para efectuar um controlo surpresa. O passaporte biológico contem informações detalhadas sobre a fisiologia dos atletas assim como sobre o seu metabolismo e regras muito apertadas: podem chover castigos para quem se negar a ser controlado ou faltar a 3 controlos programados previamente.

Também creio que devo relembrar que em Espanha e em Itália, bem como noutros países, as agências antidopagem não tem tantas competências e tanta legitimidade como a Portugal. Basta apenas ver esta cronologia feita pelo El Mundo sobre o caso da Operación Puerto e reparar que foi a Guardia Civil Espanhola que desencadeou todo o processo e não a agência espanhola anti-dopagem.

Porquê? Porque em Espanha e em Itália, os atletas não são tantas vezes controlados como em Portugal. Exemplo disso foi a ineficiência demonstrada pela agência espanhola na localização de Christopher Horner quando pretendia controlar o ciclista após a vitória no Angliru, vitória que garantiu ao americano a vitória na Vuelta.

O que é que queria dizer Dvorak com as suas palavras? Ninguém gosta de ter os vampiros à perna. Obvio. Muito menos quando eles fazem os jogadores levantar-se da cama às 4 da manhã e os privam do natural descanso que a alta-competição exige para a realização de um processo que pode ser realizado às 9 da manhã. Daí a dizer que Portugal é um caso bicudo no cumprimento da questão vai um passo muito mas muito largo. Basta por exemplo recordar as palavras proferidas pelo ciclista Riccardo Riccó (suspenso por 12 anos depois de ter sido controlado positivamente pela 3ª vez e de possuir substâncias dopantes na sua residência) aquando de uma das audiências do processo judicial movido pelas autoridades italianas: “Em Espanha ninguém controla nada nem ninguém. Não existe 1\10 do controlo que existe em Itália” – em Itália, 8 em cada 10 atletas dopados são apanhados. No entanto, as palavras do dirigente da FIFA são muito deselegantes para quem tem neste momento um dos mais eficazes sistemas de luta anti-doping no mundo.

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