Da Champions #11

A noite de quarta-feira, segunda das 4 noites previstas para a realização dos jogos da 1ª mão dos oitavos-de-final da prova trouxe outro dos cabeças-de-cartaz desta eliminatória da prova, o primeiro duelo entre o Arsenal e o campeão europeu Bayern de Munique.

Na última jornada da fase de grupos, o “novo” Bayern de Guardiola deu-se mal com o futebol inglês. Já apurado, o campeão europeu recebeu na altura o Manchester City de Manuel Pellegrini e perdeu por 3-2. O jogo ficou marcado por uma sensacional reviravolta dos homens de Manchester de o-2 (aos 11 minutos) para 3-2.

Arsenal e Bayern de Munique são velhos conhecidos do futebol europeu. Apesar dos Gunners nunca terem vencido a maior prova do futebol europeu (foram finalistas vencidos em 2005\2006; venceram a Taça das Taças em 1993\1994 e foram finalistas vencidos da Taça UEFA em 2000), ambas as equipas já se encontraram em várias ocasiões na prova. Nos últimos 14 anos, as duas equipas já se tinham defrontado por 6 ocasiões, com um histórico de 3 vitórias para o Bayern de Munique, 2 para o Arsenal e 1 empate. Curioso ou não, ambas as equipas cruzaram-se nesta fase da prova por 2 vezes: na primeira, na temporada 2004\2005, quando ainda moravam na turma londrina nomes como Dennis Bergkamp, Thierry Henry, Fredrik Ljungberg ou Robert Pirès, o Bayern levou a melhor sobre a equipa de Wenger com um agregado de 3-2 (3-1 em Munique para o Bayern; 1-0 para o Arsenal em Londres). A segunda vez que as equipas se encontraram nos oitavos-de-final da prova foi na edição da temporada passada. No caminho para a glória, os bávaros sofreram muito para bater o Arsenal e só o conseguiram fazer graças aos golos marcados no Emirates (1-3 para o Bayern em Londres; 0-2 para o Arsenal na Allianz Arena). Tendo em conta a diferença averbada pela equipa bávara no jogo de quarta-feira, se a história porventura se puder reproduzir dentro de 12 dias, poderemos ter uma excitante segunda-mão. Dado o lote de jogadores de que Arsène Wenger dispõe no plantel que orienta (mesmo apesar de algumas peças chave da equipa se encontrarem a contas com algumas lesões, casos de Olivier Giroud, Aaron Ramsey ou Theo Walcott), as melhorias de rendimento que esse plantel tem vindo a efectuar nos jogos contra equipas grandes e a própria exibição que o Arsenal fez contra a turma alemã nesta partida, não se pode dizer que o 2-0 seja suficiente para arrumar com a coisa.

As duas equipas entraram em campo com um sistema táctico parecido: o 4×51. Com algumas variações ao nível dos processos técnicos de cada um, pode-se dizer que Guardiola e Arsène Wenger são defensores de um modelo de jogo com bastantes similaridades: ambos gostam de colocar a equipa a circular bem a bola, a executar os seus processos ofensivos com rapidez, a experimentar todos os canais de jogo, ou seja, a procurar criar desequilíbrios tanto pela zona central como pelas alas, ora através do 1×1 dos seus extremos, ora através da inserção dos laterais nos processos ofensivos de forma a centrar bem para a referência de área que colocam em campo. Defensivamente, ambos os treinadores gostam de colocar as suas equipas a pressionar alto de forma a obrigarem a equipa contrária a errar.

Com algumas limitações no seu plantel como anteriormente referi, Wenger apresentou aquele que é o seu melhor onze possível: o polaco Wojciech Szczesny na baliza (aposta segura de Wenger para a baliza dos Gunners); um quarteto defensivo formado por Bacary Sagna na direita, Kieran Gibbs na esquerda (tirou o espanhol Nacho Monreal do onze em relação ao jogo disputado no passado fim-de-semana contra o Liverpool para a FA Cup) e a habitual dupla de centrais formada pelo alemão Per Mertesacker e pelo francês Laurent Koscielny; um meio-campo reforçado com Mathieu Flamini como médio com tarefas mais defensivas, Jack Wilshere e Santi Cazorla na construção e criação de jogo, Mezut Ozil mais à esquerda e Oxlade-Chamberlain na esquerda; como referência de ataque, Wenger apostou mais uma vez no jovem Yaya Sanogo. Em relação ao jogo contra o Liverpool, o espanhol Mikel Arteta saiu fora do onze. Não sendo um apreciador (nem de perto nem de longe) das características de Mathieu Flamini, compreendo perfeitamente a sua inserção nos onze titular: deixando a organização e as acelerações para quem de direito (Wilshere, Cazorla, Ozil) com dois laterais muito ofensivos na sua equipa, perante a presença de dois colossos a cair nas alas (Gotze e Robben), sempre bem auxiliados pela presença dos laterais (tanto Lahm como Alaba são extremos com bastante ofensividade ao nível da execução de cruzamentos, entrada na área com bola, combinações com Robben, Ribery e Gotze) cabia ao francês a missão de dobrar os seus laterais quando estes estivessem demasiado adiantados no terreno para não permitir que Gotze e Robben, jogadores que não são solidários nas tarefas defensivas do Bayern, isto é, raramente descem para ajudar os seus laterais, pudessem apanhar em contrapé a equipa do Arsenal naquele sector do terreno.

Já Pep Guardiola não pode contar com Franck Ribèry. De resto, Bayern na máxima força. Manuel Neuer na baliza, defesa composta como habitual por Phillip Lahm, Dante, Jerome Boateng e David Alaba; Javi Martinez à frente dos centrais, Thiago Alcantara e Toni Kroos; Arjen Robben na direita do ataque, Mario Gotze na esquerda e Mario Mandzukic na frente de ataque; no big deal.

Pode-se dizer que o Arsenal entrou de rompante na partida. Os Gunners entraram em campo literalmente para surpreender Pep Guardiola. Com um ritmo de jogo demoníaco, o Arsenal foi uma equipa directa, vertical e muito rápida de processos. Nos primeiros minutos, em bom da verdade, o meio-campo do Bayern abriu uma autêntica auto-estrada para as acelerações de Oxlade-Chamberlain e Santi Cazorla e não conseguiu acertar as marcações, os blocos de pressão. Na esquerda, Sagna e Oxlade-Chamberlain fizeram papa de David Alaba. Como Mario Gotze não colaborou nas tarefas defensivas, o austríaco viu-se a braços com dois homens muito rápidos. O Arsenal tentou explorar com intensividade aquela ala na primeira meia-hora. O espanhol haveria de obrigar Manuel Neuer à defesa da noite logo aos 3″. Sem conseguir respirar, isto é, sem conseguir ter bola, o Bayern viu a sua vida dificultada quando aos 8″ o Arsenal materializou o domínio com a conquista de uma grande penalidade: Mezut Ozil tentou passar por Jerome Boateng na área e, aproveitando o natural contacto destes lances caiu. Na repetição, avaliei que o médio alemão forçou imenso a queda. O experiente árbitro Niccola Rizoli errou ao apontar para a marca de grande penalidade e admoestar o central titular da Mannschaft com o cartão amarelo, cartão que condicionou toda a primeira parte de Boateng e obrigou inclusive Pep Guardiola a ter que retirar o jogador ao intervalo. Contudo, a alteração feita pelo antigo treinador do Barcelona teve um duplo motivo: aliado ao cartão amarelo do seu central, Guardiola denotou que o meio-campo do Arsenal venceu claramente a batalha disputada no miolo. Para por um ponto de ordem na segunda parte e como o plantel que tem à sua disposição tem várias soluções e gente bastante rotinada em vários processos (Phillip Lahm está rotinado e joga com mestria na posição de trinco; Lahm não sabe jogar mal em nenhuma posição do campo!!), o catalão colocou Rafinha na direita, desceu Javi Martinez ao centro da defesa e colocou o lateral a jogar a trinco. Lahm não só estancou o défice evidenciado pelo Bayern neste sector na primeira parte como se inseriu naturalmente na circulação de bola e na criação de jogo ofensivo por parte do Bayern no segundo tempo).

Mezut Ozil foi chamado a bater a grande penalidade. Perante o seu colega de selecção, o antigo jogador do Real Madrid desperdiçou uma daquelas oportunidades que jamais se pode desperdiçar quando se está a jogar contra o campeão europeu em título. Manuel Neuer abordou de forma inteligente o lance: aguentou até à última para ver a intenção de remate do seu compatriota e já balanceado para o lado esquerdo conseguiu defender a bola com a mão direita. Erros como o de Ozil pagam-se bastante caros a este nível.

Como nenhuma equipa no mundo consegue manter o ritmo de jogo colocado pelo Arsenal no início da partida durante 90 minutos, coube ao Bayern de Munique serenar os ânimos e diminuir o ritmo de jogo através de uma lenta circulação de bola. Situação que é incutida decerto por Pep Guardiola para as ocasiões em que tal seja necessário. A tarefa do Bayern foi sucedida nos minutos que se seguiram: Pep Guardiola não gostava daquilo que via no banco; Robben e Gotze estavam para já arredados do jogo; Thiago Alcântara e Toni Kroos não davam a urgente progressão que a equipa bávara necessitavam depois de uma entrada tão forte dos homens de Wenger; porém, a circulação de bola sem circulação foi um acto de inteligência e maturidade destes jogadores pois, paulatinamente obrigaram os adversários a abandonarem o esquema de pressão alta e baixar significativamente as suas linhas. Em poucos minutos, as linhas do Arsenal juntaram-se, não permitiram ao Bayern de Munique encontrar espaços para executar a sua rápida circulação de jogo para os flancos (coisa que não aflige os bávaros dadas as características de alguns dos seus jogadores) mas entregaram por completo as despesas do jogo para os centrocampistas da equipa de Munique. A absência de jogo na sua ala obrigou Robben a procurar jogo nas imediações da área numa posição mais central.

Aproveitando a superioridade númerica no flanco, o Arsenal seria capaz de provocar mais um calafrio à defesa do Bayern. Jack Wilshere tentou lançar com um passe longo Alex Oxlade-Chamberlain na direita, David Alaba deixou a bola bater no relvado, facto que possibilitou que o esférico ganhasse velocidade e nas costas o jogador inglês apareceu na cara de Neuer, que, com uma saída rápida da baliza conseguiu atirar a bola para fora. Nas últimas semanas, o guarda-redes do Bayern realçou que a maior evoluição sentida no seu jogo neste início de funções do técnico espanhol no clube germanico foi precisamente o jogo com os pés. Neuer afirmou que pela primeira vez na sua carreira não sente receio quando a bola lhe vem parar aos pés.

Cinco Notas individuais – três positivas: até esta fase do jogo, Jack Wilshere usou e abusou do passe longo. Não falhou nenhum dos 3 ou 4 que executou. Laurent Koscielny e Per Mertesacker estavam a ter uma noite tranquila. Meteram o croata Mario Mandzukic no bolso. duas negativas: Toni Kroos e Thiago Alcântara estavam muito estáticos no miolo do Bayern e permitiam aos jogadores do Arsenal antever com facilidade aquilo que iam executando.

Aos 30″ dá-se o segundo caso do jogo: Jerome Boateng carrega Kieron Gibbs. O lateral-esquerdo do Arsenal cai no chão e pede a substituição. Com um amarelo na partida, coube a Nicola Rizzoli decidir se devia expulsar o central alemão. O italiano não o fez apesar da falta ter sido feia, provavelmente para não estragar a partida. Entra Nacho Monreal.

O Bayern pegou definitivamente no jogo e tentou pela primeira vez na partida conseguir alguma progressão no meio-campo e criar jogo no último terço do terreno – Aos 34″, Robben combinou com Alaba no flanco esquerdo, entrou na área, recebeu do austríaco e rematou contra as pernas de Mertesacker. Na repetição, calculei que Szczesny. No minuto seguinte, Gotze tentou uma acção individual dentro da área. Recebeu de Alcântara in the box, tentou puxar a bola para o centro mas Laurent Koscielny não permitiu veleidades ao antigo jogador do Borussia de Dortmund. Aos 36″ Robben, conseguiu cravar uma grande penalidade. Justa. Robben recebeu nas imediações da área, deu um bocado mais para trás para Kroos, furou pelos centrais do Arsenal e recebeu um passe pelo ar de Kroos. Contra a saída de Scszesny tocou a bola para a frente e esperou ser tocado pelo polaco. Tenho as minhas dúvidas em como o craque holandês conseguisse chegar à bola. Nicola Rizzoli aplicou a regra: como o holandês estava na cara do guarda-redes, o cartão vermelho era a decisão correcta. Arsene Wenger foi obrigado a mexer na equipa e a sacrificar Santi Cazorla para a entrada de Lukasz Fabianski. Depois do ímpeto inicial demonstrado pelo espanhol nos primeiros 10 minutos, foi desaparecendo do jogo com o avançar dos minutos.
Como o futebol é um bicho complicado, cheio de carambolas, David Alaba partiu para a bola (a imagem mostrou um segundo plano maravilhoso com os adeptos do Arsenal a pedir que o austríaco enviasse a bola para a bancada) e atirou para o lado esquerdo com a bola a embater na base do poste antes de sair!

Ao intervalo, o empate justificava-se. Ambas as equipas desperdiçaram duas grandes penalidades, fizeram os mesmos remates à baliza (7) e tiveram uma oportunidade de golo.

A 2ª parte inicia com as alterações promovidas por Guardiola. A jogar em superioridade númerica, a equipa do Bayern tratou de encostar às boxes a equipa do Arsenal.Jack Wilshere pedia calma aos seus colegas. Aos 50″ Koscielny teve nos pés uma boa oportunidade para alvejar a baliza de Neuer. Livre batido por Ozil dentro do meio-campo do Bayern. O alemão coloca a bola à entrada da área. Aproveitando a subida da cortina defensiva do Bayern para tentar colocar várias unidades do Arsenal em fora-de-jogo, Koscielny aparece destacado na área a receber (em linha). O francês dominou mal a bola e não conseguiu melhor do que um remate para defesa fácil de Neuer. Na jogada seguinte, Robben combinou com Lahm na direita e o lateral não conseguiu melhor que o francês.

The Robben Show –

O holandês tratou de puxar dos galões. Aos 52″ pôs em campo a sua imagem de marcar ao receber na direita, flectir para o centro do terreno e rematar em arco para a baliza do Arsenal com o remate a sair ligeiramente ao lado. No minuto seguinte, Lahm tentou combinar com Robben mas optou por dar a bola ao meio para o remate de Toni Kroos. De primeira, o alemão haveria de inaugurar o marcador com um fantástico remate em arco que entrou junto ao poste direito de Luksz Fabianski. O guarda-redes polaco bem se estirou mas o remate do médio alemão era indefensável.

Com a obtenção do golo, o Bayern continuou a rondar a baliza do Arsenal. Aos 62″, os jogadores do clube bávaro executaram uma jogada a fazer lembrar os velhos tempos do Barcelona de Guardiola: Robben apareceu nas costas da defensiva inglesa e Toni Kroos tratou de lhe colocar a bola. O Holandês acabou por rematar para defesa fácil de Fabianski, não sendo sua intenção, na minha opinião, rematar à baliza mas sim servir Mario Mandzukic no coração da área. O croata não deverá ter percebido as intenções do seu companheiro de equipa e não atacou o espaço.
No minuto seguinte, Mandzukic saiu para dar lugar a Thomas Muller. O Bayern fazia tudo bem excepto o último passe.
O holandês continuou o seu show pessoal. Numa fase em que os 10 elementos do Arsenal defendiam nos últimos 10 metros, o holandês recepcionou a bola na direita e executou mais um remate em arco para fora. Adivinhava-se portanto o segundo golo do Bayern.

Sem qualquer iniciativa de ataque, Arsène Wenger jogou a sua cartada final: Aos 73″ tirou Oxlade-Chamberlain e colocou o checo Tomas Rosicky em campo.
No minuto seguinte, os jogadores do Bayern ficaram a pedir grande penalidade: Robben solicita Muller dentro da área e este perante a oposição de Koscielny sente o toque do francês no seu pé de apoio e cai na área. Fiquei com muitas dúvidas em relação a este lance.

Guardiola pressentia que o segundo golo poderia matar o jogo e a eliminatória. Aos 78″ substitui Thiago Alcântara por Claudio Pizarro, passando a jogar com 2 avançados. O 2º golo haveria de chegar nos minutos finais quando Thomas Muller materializou o domínio exercido pelo Bayern depois da expulsão de Wojciech Szczesny. Vitória justa para o Bayern. O Arsenal vai ao Allianz Arena com uma missão muito difícil mas não impossível. Se repetir a vitória conquistada no ano passado, irá levar o jogo para prolongamento.

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