Crónica: Surpresa no Jardim

Descontando todos os incidentes que decorreram durante o dia de ontem (e na verdade, ainda decorrem), houve um motivo de particular interesse para os amantes da táctica e dos processos de jogo: o onze inicial que Leonardo Jardim lançou.

Esperava-se uma abordagem simples por parte do Leonardo Jardim. Pela conferência de imprensa, pareceu-me dar a entender que o plano A seria Dier no lugar de William e Piris à esquerda, e o resto manter-se-ia normal. Algumas dúvidas na frente, já que a hora a que o jogo poderia decorrer puxaria ao físico dos jogadores devido ao possível vento e chuva, e portanto a inclusão de Slimani apoiado por Capel e Carrillo faria todo o sentido. Mas eis que 30 minutos antes da partida, chega às mãos da imprensa um onze surpreendente no trio atacante: Montero, Slimani e o estreante Heldon.

Parece-me clara a mensagem que Leonardo Jardim transmite ao grupo, aos adeptos do Sporting e ao adversário. Jardim vai meter a carne toda no assador de imediato, com Fredy Montero, Slimani e Heldon na frente. Antes de mais, são 3 jogadores capazes de marcar golos (ambos valem mais do que 25 golos em todas as competições). Montero é um jogador mais móvel, forte em espaços curtos e inteligente no 1 para 1 sem ser um jogador explosivo, Heldon é rápido, vertical no último terço e potente na finta longa. Também sabe finalizar muito bem (9 golos pelo Marítimo). Slimani é forte fisicamente, raçudo, forte de cabeça, e não é assim tão cepo de pés como parece. Sabe segurar jogo e oferece alternativas de passe de costas para a baliza. Leonardo Jardim procurou juntar todos estes ingredientes na panela, mas há que realçar novamente o que Leonardo Jardim procurou: provas estatísticas que representam eficácia. E meteu os melhores nisso lá na frente, não haja dúvida.

Mas se os jogadores que incluí poderão causar apreensão em Jorge Jesus, o que não se dirá do esquema táctica. O onze apresentado indica um 4-3-3, mas não significa que assim seja. Um esquema óbvio seria Montero na esquerda, Slimani no centro e Heldon na direita. Contudo, quando Montero e Slimani jogaram juntos, raramente se viu Montero na esquerda, onde lhe falta explosão para fazer a diferença. Montero procurou sempre os caminhos 5 metros atrás de Slimani, funcionando quase como um trequartista sem batuta. Uma espécie de 4-4-2, desmontado num 4-4-1-1 em termos atacantes. Neste caso, teríamos André Martins na direita a funcionar como médio interior e Heldon na esquerda, Dier um pouco atrás de Adrien, os laterais a procurarem fechar mais o meio para dar profundidade e dar menos largura, beneficiando o estilo de jogo direto e pela zona central. Outra alternativa mais rebuscada poderá ser a inclusão de Montero atrás de Heldon e Slimani, com Adrien e André Martins a darem largura, o que funcionaria de uma forma semelhante a um 4-4-2 losango.

O efeito surpresa pode ter-se desvanecido um pouco com o atraso do jogo. Mas não desapareceu, de todo. Resta saber como irá Jorge Jesus reagir a estes inputs, e com certeza tudo isto lhe estará a causar algumas dores de cabeça. Poderá mesmo entrar em pânico e colocar Cardozo de início para imobilizar a zona central do Sporting e conferir maior poder de fogo, e até dar um impacto motivacional contra o Sporting (Cardozo molha sempre o bico frente ao Sporting). Mas ao contrário do FC Porto, que entrou na Luz com um onze cauteloso e à espera de um 4-3-3, o Sporting procura entrar para vencer e sem pensar muito no esquema do Benfica, que irá consistir num 4-4-2 centrado no jogo direto e nas investidas de Gaitán e Markovic a procurar os pés certeiros de Rodrigo e Lima, caso JJ não opte por mudar para Cardozo.

Leonardo Jardim sempre se manteve fiel à sua equipa. De facto,  a identidade é uma força desta equipa do Sporting. Muitos questionam que Leonardo Jardim poderá ter posto em causa a identidade da equipa com este onze. Pelo contrário, eu acho que a identidade ficou ainda mais vincada. Porque a identidade não é só manter-se fiel a um esquema de jogo ou sistematizar 1 ou 2 modelos: a identidade é o que a equipa pretende quando entra em campo. E Leonardo Jardim quer ganhar. O Sporting quer ganhar. Resta apenas saber se quer ganhar, ou se está apenas a inventar.

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