o que eu ando a ver #30

O novo San Mamés recebeu ontem a 2ª mão dos quartos-de-final da Copa do Rei de Espanha que colocou frente-a-frente, a equipa da casa, o Athletic de Bilbao, equipa até ontem invicta no seu novo reduto, e o Atlético de Madrid, equipa que vinha a Bilbao com a missão de defender a magra vantagem de 1-0 obtida no jogo da primeira mão na semana passada no Vicente Calderón.

Antes de relatar as incidências da partida, urge-me tecer duas notas gerais sobre as suas equipas:

1. O jogo de ontem provou mais uma vez a excelência do trabalho que Ernesto Valverde está fazer na equipa basca – apesar da derrota, é de louvar o futebol equilibrado e bonito que a equipa basca está a jogar esta época, futebol que está a dar os seus frutos na liga com o prodigioso 4º lugar que a equipa ocupa neste momento. Se o campeonato espanhol terminasse hoje, o Athletic estaria apurado para o playoff de acesso à Champions, objectivo que não deveria passar pela cabeça de ninguém dentro da sua estrutura profissional de futebol. Aproveitando um plantel com uma capacidade técnica bastante elevada, Valverde teve o mérito de dotar esta equipa de processos de jogo dos melhores que actualmente podemos observar pela europa.

2. No que diz respeito à equipa de Simeone, o jogo de ontem revelou mais uma vez a dificuldade que é vencer esta equipa na disposição estratégica com que esta se apresenta na presente temporada. Se defensivamente, o bloco baixo que a equipa apresenta é muito difícil de contornar pelos adversários na medida em que todos os jogadores do Atlético tem instruções específicas sobre as movimentações executadas pelos adversários de forma a não concederem espaço para que estes possam criar desequílibros, ofensivamente, esta equipa do Atlético de Madrid demonstra um cinismo nunca antes visto em equipas espanholas – o jogo de ontem foi prova disso: os jogadores do Atlético entregaram por completo as despesas do jogo aos homens de Bilbao durante os 90 minutos, sofreram golo, reagiram depois do golo, entraram fortes na 2ª parte, conseguiram o seu golo, voltaram a entregar as despesas do jogo à equipa de Bilbao e no cair do pano, quando a equipa do Athletic já jogava com o coração, desferiram a machadada final no jogo e na eliminatória.

As duas equipas entraram no San Mamés com os níveis anímicos em alta em virtude das vitórias gordas obtidas no passado fim-de-semana para a liga. No clássico regional, em Pamplona, o Athletic de Bilbao cilindrou o Osasuna por 5-1 num jogo que Ibai Gomez esteve novamente em alta. Ernesto Valverde haveria de deixar o melhor marcador da equipa basca no banco. Já o Atlético de Madrid apareceu em Bilbao moralizado pela vitória obtida por 4-2 sobre o Rayo Vallecano no Teresa Rivero, estádio situado em Vallecas (subúrbios de Madrid). Fruto da gestão de esforço que a equipa técnica está a realizar neste plantel (na antevisão da partida Simeone afirmou que a equipa técnica programou uma ligeira quebra de forma física para o mês de Janeiro de modo a poupar fisicamente os jogadores para a batalha que começa a meio do mês de Fevereiro – campeonato e champions) Diego Simeone poupou o turco Arda Turan da partida de Bilbao e realizou algumas poupanças ao colocar no onze da equipa para a partida Adrián e Cristian Rodriguez, jogadores que formaram o trio de ataque dos Colchoneros em conjunto com Diego Costa, este mais descaído para o flanco direito.

Cientes da rivalidade existente entre as duas equipas e, derivado do quezilento jogo da 1ª mão, desde cedo, os arreigados adeptos da equipa de Bilbao trataram de manifestar o seu apoio à sua equipa. Na antevisão da partida, Ernesto Valverde fez questão de agradecer e pedir o apoio dos adeptos ao seu conjunto para a partida, frisando porém que o apoio per si não garantia golos a uma equipa que tinha de marcar para poder eliminar o adversário em questão.

Aos 30 segundos o Atlético de Madrid poderia ter selado “meio apuramento” quando na jogada inicial, Diego Costa apareceu isolado na cara de Iago Herrerin numa desconcentração dos dois centrais do Athletic de Bilbao – Laporte, o único jogador não nascido no país basco espanhol ou nos territórios que são reclamados pelos movimentos independentistas bascos  (nascido no País Basco Francês) e Mikel San José, curiosamente um dos navarrenhos do plantel – que foi resolvida com uma espectacular parada do guarda-redes que já defendeu no passado as balizas da equipa B do Atlético de Madrid.

Na sua habitual disposição estratégica (pressionar alto de forma a conseguir interceptar bolas no meio-campo adversário; quando o adversário passa o meio-campo com bola, recuar o mais rapidamente possível para executar um esquema de defesa profunda) pode-se dizer que o Atlético de Madrid conseguiu conquistar a primeira vantagem sobre o conjunto de Bilbao ao conseguir travar o ímpeto inicial que decerto esperava da equipa de Valverde para os primeiros 15 minutos em jogo. O melhor que a equipa basca conseguiu nestes primeiros 15 minutos foi circular a bola no meio-campo e um cabeceamento inofensivo de Ander Herrera aos 5 minutos a cruzamento de Andoni Iraola. Com todo o jogo ofensivo da equipa a partir dos pés de Herrera, o Bilbao circulava bem a bola entre os eixos mas não conseguia arranjar forma de penetrar no último terço do terreno dos colchoneros. Só o conseguiu fazer nos minutos que antecederam o seu primeiro golo na partida, quando Iker Muniain, teoricamente mais descaído no flanco esquerdo, passou para o terço do terreno e funcionou como joker à entrada da área. A movimentação do jovem internacional espanhol durante a partida foi fantástica: fazendo jus às fortíssimas soluções de jogo que possui (forte no 1×1: fantástica visão de jogo a solicitar Mikel Balenziaga no flanco esquerdo e a dupla Iraola\Susaeta no flanco direito) Muniain foi um autêntico quebra cabeças que baralhou por completo as marcações realizadas pelos jogadores do Atlético de Madrid.

O jogo foi decorrendo com uma maior posse de bola para os bascos perante um inexistente Atlético de Madrid no plano ofensivo. Aos 27″, os jogadores do emblema basco reclamaram grande penalidade num lance em que Markel Susaeta, solicitado dentro da área com um passe longo de Iraola, foi estorvado por Emiliano Insúa (entrado aos 12 minutos para o lugar do lesionado Felipe Luis) quando se preparava para almejar a baliza defendida por Thibault Courtois. As repetições mostraram que o argentino não tocou no pé do extremo basco.

O cerco montou-se rapidamente junto à área dos madridistas. Aos 31″ Iker Muniain rematou à entrada da área para defesa fácil de Courtois. Segundos depois, o belga foi obrigado a sair a punhos fora da pequena área para evitar que Aduriz pudesse fazer o primeiro da partida. O público do San Mamés agitou-se. Lendo bem a situação de jogo, Simeone pediu à equipa que tivesse mais bola e subisse ligeiramente as linhas, facto que aos 37″ iria originar mais uma situação de perigo na área basca quando um canto permitiu a Raúl Garcia antecipar-se ao primeiro poste à marcação de Mikel Rico e ao seu estilo de cabeceador mortífero atirar ao poste contrário. A bola acabaria por sair ligeiramente ao lado da baliza de Iago Herrerin num lance em que logo que vi o cabeceamento disse “vai buscar”. Sem efeito.

4 minutos depois seria o Athletic a passar da ameaça à concretização. Tudo começou quando Iturraspe (autêntico cavalo de batalha no meio-campo) recuperou no miolo uma bola aliviada pela defesa do Atlético, endereçando-a para Muniain que, no alto da sua classe descobriu Mikel Balenziaga a subir pelo flanco. O lateral recebeu, olhou, centrou e no centro da área Aduriz agradeceu o excelente cruzamento do lateral, deixou Godin a esbracejar por falta e atirou para o fundo das redes de Thibault Courtois, deixando a assistência do belíssimo San Mamés em puro estado de euforia colectiva.

A equipa de Bilbao galvanizou-se com o golo. Empurrada pelos seus adeptos, procurou o 2º golo até ao final da primeira parte: aos 43″ Ander Herrera obrigou o belga a uma defesa monstruosa num remate na meia-lua e no seguimento do lance, Susaeta voltou a insistir com um cruzamento para uma cabeçada de Aduriz para nova defesa monstruosa de Courtois. Se havia nesta altura quem rezasse na bancada do San Mamés, no verdinho, os homens de Simeone bem poderiam montar o culto ao Deus que lhes tinha garantido ali meia passagem para o céu na competição.

Ao intervalo, pelos factos aqui descritos, a vantagem do Bilbao era justíssima.

No início da segunda parte, numa situação desconfortável na eliminatória, o cinismo do Atlético de Madrid viria ao de cima. Aos 47 minutos, numa jogada individual pelo flanco esquerdo que passou pela linha final, Diego Costa aproveitou o facto dos jogadores de Bilbao terem dado a bola como perdida para levar a sua avante e servir Adrián no centro para um remate para defesa de Herrerin. Canto batido. Diego Costa aparece ao 2º poste a cabecear de cima para baixo junto ao poste direito da baliza para uma defesa espectacular de Herrerin. À 4ª é de vez. 53″ livre para o Atlético no meio-campo do Athletic a assinalar falta de Mikel San José sobre Adrián num lance em que o avançado poderia ficar na cara de Herrerin. Mais uma vez a equipa de Simeone provou trabalhar bem as bolas paradas, departamento do jogo que já lhe tinha dado a vitória no Estádio do Dragão com o lance executado por Koke e Arda Turan, o turco que sabe tudo de bola. Bola cobrada por Koke para área onde aparece Miranda ligeiramente descaído à esquerda, solto de marcação a amortecer a bola para o coração da área onde apareceu Raúl Garcia a rematar para nova defesa de Herrerin. O ressalto fez a bola tender para o flanco esquerdo para os pés de Cristian Rodriguez que de primeira bombeou a bola precisamente para o sítio onde estava o centrocampista espanhol que desta vez num remate enrolado não perdoou e estabeleceu o empate na partida. O Athletic de Bilbao precisava agora de 2 golos para poder vencer a eliminatória.

Os bascos voltaram a provar de que matéria são feitos ao lançar-se novamente no ataque à baliza de Courtois. Em frente na eliminatória, os colchoneros voltaram a recolher-se na matéria que será estudo de caso no futebol mundial dentro de alguns anos, a sua fantástica organização defensiva.

Aos 61″ Markel Susaeta colocou uma bola na área. Aduriz fez-se ao lance, arrastou consigo Godin mas deixou a bola passar para um desmarcado Mikel Rico que não conseguiu mais do que bater a bola com a coxa precisamente para Aduriz. O antigo avançado do Valência haveria de atirar contra o corpo do inevitável Courtois. Nesta fase do jogo, Insua estava a dar muito espaço para Susaeta aplicar o seu fortíssimo 1×1. Aos 65″ Valverde lança no terreno de jogo Ibai Gomez em troca por Mikel Rico. Muniain passou para o centro do terreno no apoio directo a Aduriz. Aos 66″ Susaeta dispôs de um livre em zona frontal, atirando rasteiro ao lado da baliza de Courtois. Conseguindo circular bem a bola no ataque, não conseguindo penetrar na muralha defensiva formada pela equipa madrilena depois do golo do empate, acabaria por vir o desgaste físico e anímico para os bascos. Mais um ponto a favor do Atlético. A equipa de Bilbao cansou-se de circular bola e tentou aplicar um jogo mais directo para área, jogo esse onde os centrais do Atlético (Godin e Miranda) se sentem como peixes na água visto que tem experiência acumulada na presente temporada na defesa desse tipo de processos de jogo.

Aos 70″ Ander Herrera recebe descaído à direita, consegue livrar-se da pressão de dois adversários e atira para mais uma defesa de Courtois, desta vez para a frente. No banco da equipa basca, Valverde quase vai à loucura. Passados 2 minutos volta a mexer na equipa com a entrada de Kike Sola para a saída de Markel Susaeta. Muniain vai ocupar o flanco direito. Se esteve com atenção a este longo testamento, perceberá que com a deslocação de Muniain para a direita, o Athletic perdeu toda a sua força ofensiva. Aos 76″ Valverde ainda haveria de lançar Beñat para o lugar de Ander Herrena de forma a refrescar o meio-campo da equipa.

diego costa

Diego Costa que até ali só tinha provocado quezílias em 2 disputas de bola, uma com Mikel Balenziaga e outra com Aymeric Laporte, decidiu aparecer na partida. Bastante apupado pelo público afecto aos visitados, tratou de fazer jus ao cínico futebol que é neste momento o cartão-de-visita dos comandados de Simeone quando aos 85″ recebeu isolado um passe a rasgar de Koke detrás do meio-campo (Mikel San José tentou montar uma situação de fora-de-jogo ao brasileiro naturalizado espanhol, acabando por ser apanhado no fantástico sentido posicional do pichichi do Atlético) e com a classe que lhe é reconhecida avançou para a área, fintou Iago Herrerin e com um toque subtil para o fundo das redes sentenciou a vitória dos colchoneros no até ontem invicto reduto do Athletic de Bilbao.

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