O Eusébio é de todos!

Ponto prévio: nunca vi Eusébio jogar.

Formulei a ideia que dele tenho enquanto jogador, com base nos testemunhos de diversos amigos e familiares, mas também de documentários que vi sobre a carreira do ex-jogador do Benfica. Quando comecei a ter interesse por futebol, mais ou menos na altura em que com seis anos entrei para a Escola Primária, apercebi-me que aquele que era o meu clube, o Sporting, não era o clube da maioria dos meus colegas. Não, não vem aí nenhum choradinho a dizer que fui vítima de bullying por ser “lagarto”, ou que os outros meninos não me deixavam jogar à bola no intervalo por gostar mais do Cadete do que do Rui Águas. O que quero dizer é que cresci naquele período (anos 90) que ainda hoje catalogo como sendo “o auge da arrogância benfiquista”, em que não apenas os meus colegas de Escola, mas também jogadores e até dirigentes do Benfica me queriam fazer acreditar numa dimensão estratosférica do clube da Luz, com base num palmarés construído há algumas décadas atrás. E, quando se falava dos feitos históricos do Benfica, irremediavelmente a conversa passava pelo nome de alguém que, também neste assunto, era uma referência dentro da área: Eusébio.

Sempre tive respeito por Eusébio. Eu, que nunca o vi jogar, aprendi a admirá-lo por um motivo diferente daqueles que tiveram a sorte de vibrar com os seus golos. Admirei-o fundamentalmente pela humildade. Pela humildade que muitas vezes os meus colegas da Escola, os jogadores e os dirigentes do Benfica daquela altura não tinham. Sempre achei que o facto de tanta gente usar os feitos de Eusébio para elevar a dimensão do Benfica, contrastava com o facto de o próprio Eusébio – que, ele sim, tinha legitimidade para ser arrogante – nunca aparecer publicamente a gabar-se daquilo que havia feito no passado pelo seu clube e pela imagem do país.

Sempre defendi que as grandes figuras públicas, independentemente das cores (políticas, desportivas ou outras) que defendem, devem ser protegidas quando chegam a uma certa idade. De José Saramago, passando por Mário Soares, até ao próprio Eusébio, tenho defendido a ideia de que familiares e amigos devem proteger aqueles que, das mais diversas formas, deram de si ao país, e que fruto do avanço da idade começam a perder discernimento e a manifestar publicamente opiniões menos válidas e ponderadas.

Nos últimos anos, Eusébio disse que odiava o Sporting, que queria que o clube perdesse sempre, e que o Sporting era um clube racista. E eu não fiquei zangado com ele por causa disso. A admiração que fui tendo pela sua postura na vida e pelo estatuto e respeito que, com o seu suor, conquistou na nossa sociedade, era superior ao rancor que lhe poderia guardar por umas quaisquer declarações feitas num contexto que desconheço. Não precisei que o Eusébio falecesse para perceber que, à conta de tudo aquilo que ele fez, “o Eusébio é de todos”, algo que eu julgo que o próprio Eusébio, essencialmente fruto da sua humildade, nunca chegou a ter verdadeira noção.

Ao longo do dia de hoje (Domingo), foram prestadas algumas bonitas homenagens ao Pantera Negra, como a do adepto sportinguista que logo pela manhã colocou um cachecol do Sporting na estátua de Eusébio, no Estádio da Luz. Mas também é certo que houve alguns episódios menos bonitos, um deles protagonizado precisamente por Mário Soares que, num momento delicado como este, veio afirmar que Eusébio havia sido “um homem com pouca cultura”, que “bebia muito whisky todos os dias”.

Achei também algo precipitado que, poucas horas depois de se saber que Eusébio nos tinha deixado, em declarações à Benfica TV já Luís Filipe Vieira afirmasse que o contrato que Eusébio tinha com o Benfica era para manter activo e ser respeitado, e que reverteria a favor da viúva do Pantera Negra. Nessa mesma entrevista, também a questão de se o facto de Eusébio ter falecido podia ser visto como um factor aglutinador e de ‘incentivo extra’ para motivar e melhorar o desempenho da equipa de futebol, me pareceu algo despropositado. Não por considerar que as duas questões não sejam pertinentes, mas por achar que o timing não foi o melhor.

Espero não ser mal interpretado em nada do que escrevi, aproveitando para mandar um abraço sentido aos adeptos benfiquistas que nos lêem. E aos do Porto. E aos do Sporting. Afinal de contas, “o Eusébio é de todos”.

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3 thoughts on “O Eusébio é de todos!

  1. Despropositados são todos aqueles que deviam ser exemplos. Tal como as declarações de LFV, que sao condenáveis, condenável tambem é comunicados do SCP e FCP lamentando a morte de Eusébio sem referir o clube onde ele jogou mais jogos.
    É este o nosso futebol!
    P.S.: Começo a achar que ele só jogou nos seguintes clubes: Maxaquene (MOZ), Rhode Island Oceaneers (EUA), Boston Minutemen (EUA), Monterrey (MEX), Toronto Blizzard (EUA), Las Vegas Quicksilvers (EUA), União de Tomar (POR), New Jersey Americans (EUA) e Buffalo Stallions (EUA)

  2. Sporting de Lourenço Marques, actual Sporting de Maputo, Mário.
    Ouçam lá: se o LFV não mantivesse o contrato, como é que a Carla Susana sobrevivia só com dois mestrados tirados com o 5×3 à Coreia do pai?

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