O Tottenham da era André Villas – Boas

Para quem não sabe, André Villas – Boas foi demitido ao final da manhã de ontem do seu cargo de treinador principal no Tottenham Hotspur, após uma humilhante derrota por 0-5, em casa, e frente ao Liverpool. Para quem está surpreendido, era expectável que chegasse a este ponto. Julgo que a época do Tottenham não estava a ser assim tão má para os recursos humanos e estruturais de que o clube dispõe, neste momento, mas as humilhantes derrotas frente a Manchester City, West Ham e Liverpool ditaram a fatalidade.

Mas então o que falhou na era Villas – Boas?

Julgo que o principal problema do AVB foi a sua ideia de jogo. AVB tentou implementar, no futebol britânico, uma nova cultura de futebol. Devido às características muito próprias dos campeonatos ingleses, é sempre muito difícil conseguir implementar um nova cultura dentro da cultura, excepto se fores um pré-destinado (como é o caso de José Mourinho). Até aqui tudo bem. Contudo, o estranho é AVB ter tentado implementar, desde o primeiro dia em White Hart Lane, um modelo de jogo completamente desadequado com as ideias de jogo que implementou na sua curta estadia em Portugal. Quando AVB chegou à Académica, conseguiu recuperar um conjunto de jogadores “nas lonas” em termos anímicos e psicológicos. Após consegui-lo, implementou um modelo de jogo que consistia na posse de bola e da aglomeração da mesma nas zonas mais frágeis do adversário e na constante pressão alta no processo de recuperação de bola. Poucos se deverão lembrar que esta Académica era entusiasmante, e pouco se lembrarão que o trabalho que o Villas-Boas lá fez não foi menos do que notável. Por isso é que foi parar ao FC Porto. E na cidade Invicta transportou o mesmo modelo e ideia de jogo, desta vez com jogadores de maior qualidade individual. O resultado dessa época 10/11 está escrito na história. E o que está escrito não foi só obra dos jogadores. Villas-Boas é um belíssimo treinador, e tem um potencial imenso em certos aspectos. Infelizmente, o que se viu por Inglaterra foi um treinador que além de não conseguir adaptar essa ideia aos seus jogadores, fez com que ela deixasse de existir. Quando se via o Chelsea e principalmente o Tottenham a jogar, assistia-se constantemente a uma equipa inflexível, sem fio de jogo e extremamente dependente de 1 ou 2 individualidades. Algo completamente antagónico com a ideia que AVB apresentou em Portugal. Porque abdicou Villas-Boas das suas ideias?

Parece também que tivemos no Tottenham o mesmo que no Chelsea: AVB a não se conseguir impor frente a um grupo de futebolistas cheio de vícios. Muito se falava que, no FC Porto, o Villas – Boas não era a pessoa que controlava o grupo de trabalho, mas sim o Vítor Pereira. enquanto o Villas – Boas preparava a equipa em termos técnico – tácticos para jogar o melhor futebol possível, o Vítor Pereira procurava atender às necessidade motivacionais da equipa. Parece faltar liderança a Villas-Boas. Tal como no Chelsea, onde foi engolido por um balneário complicado, é possível que tenha acontecido o mesmo em White Hart Lane. Quem quiser pode verificar os tweets do Assou-Ekotto, dispensado por AVB no início da temporada:

https://twitter.com/AssouEkotto/statuses/412278969619476480

O outro problema prende-se com a qualidade individual dos jogadores do Tottenham. É certo e sabido, tanto AVB como o Levy reiteraram que o objectivo no ano passado era atingir a Champions. Neste ano, o objectivo continua (?) a ser o mesmo. Por outras palavras, o Tottenham teria de ser top-4 nesta Premier League. Eu faço a pergunta: como é possível este Tottenham ser top-4 nesta Premier League? Estou saturado de dizer que este Tottenham não tem capacidade individual para lutar contra outros clubes com os mesmos objectivos, como Arsenal, Chelsea, Manchester City, Liverpool. Ninguém pode atacar um top-4 com o Soldado quando outros atacam com Giroud, Eto’o, Aguero, Suarez, Sturridge. Ninguém pode atacar um top-4 sem um abre-latas, quando os outros têm isso com Ozil, Hazard, Aguero, Silva, Suarez (Poderá ser Eriksen, quem sabe, mas tem de recuperar da lesão e adaptar-se). Ninguém pode atacar um top-4 sem um dupla de centrais consistente. E finalmente, e referindo um pouco o mau investimento que foi feito e relacionando com a falta de uma boa dupla de centrais, ninguém pode atacar um top-4 com zero defesas esquerdos, e adaptar o seu melhor central a lateral-esquerdo sucessivamente. Um erro crasso!! A fazer lembrar Jorge Jesus 2010/2011, onde tentou ganhar um campeonato frente ao FC Porto de AVB a jogar com um defesa esquerdo sem qualidade de Liga ZON Sagres.

Além disso, pelo que estamos a ver, dificilmente terá capacidade para contrariar as surpresas da temporada se mantiverem o nível (Southampton, Everton) e ainda tem o Manchester United à perna que irá subir de rendimento ao longo da temporada para tentar chegar, no mínimo, ao top-6. Não estarão as ambições pré-definidas no início da temporada pela equipa directiva e técnica do Tottenham desajustadas com a realidade?

Outros diriam que ao André Villas – Boas faltou tempo para assimilar um conjunto de novas contratações à sua metodologia e formar uma modelo de jogo não tão excessivamente dependente do Gareth Bale (como era no ano passado). Eu discordo, em grande parte, desta afirmação. Para quem pouco se lembra, no ano passado, também não existia fio de jogo. Mas existia Gareth Bale, que adaptado a uma função de médio-ofensivo, pautava e ditava o ritmo da sua equipa, e decidia muitos jogos a favor da sua equipa. Por alguma razão ele foi nomeado BPL Player of the Season e foi parar ao Real Madrid pela quantidade exorbitante que foi. Mal seria ter um dos melhores do mundo no clube e não fazer a equipa em redor do mesmo. Mas não deixou de ser engraçado ver os tweets de Rio Ferdinand e Gary Neville, ambos a defenderem AVB:

Sinal de que em Manchester, os jogadores estão habituados a acreditar nos ciclos e em dar tempo ao tempo, embora acho que neste caso, não têm muita razão e o projecto Tottenham 13/14 estaria condenado ao fracasso, numa equipa que, ao contrário do Manchester United, está à procura de chegar ao top-4 a curto-prazo através do investimento rápido e eficaz (algo que não tem acontecido). Um choque de mentalidades e de ideias interessante.

Não há como evitar: André Villas – Boas voltou a falhar, uma vez mais. Um exemplo gritante de como fazer uma péssima gestão de carreira. Mas é preciso referir que a culpa não morre solteira, e nem toda a culpa é dele, como já referi em cima. A falta de uma estrutura e a falta de uma liderança forte prejudicam e muito este Tottenham. Tal como André Villas – Boas quando foi para o Chelsea, o Tottenham parece-me um clube que está a tentar dar um passo maior do que perna. As ambições do Tottenham não correspondem à estrutura, eficácia do investimento e qualidade individual da sua equipa. E venha quem vier, julgo que não conseguirá endireitar as coisas a tempo durante o resto da temporada, excepto se o Levy finalmente investir como deve ser no mercado de inverno.

Ppara AVB, está na hora de tirar um ano sabático e pensar nas suas ideias. O regresso de Vítor Pereira para seu adjunto poderia ser algo positivo, o que lhe daria margem para se concentrar nas equipas em termos técnico – tácticos e deixar outras tarefas onde não é tão competente (motivação e liderança, por exemplo). E que não volte a Inglaterra e vá para um campeonato mais ao seu estilo. Como o campeonato espanhol, por exemplo.

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4 thoughts on “O Tottenham da era André Villas – Boas

  1. Caro Borba, concordo na integra com as opiniões expressadas no poste. Só tenho uma única ressalva: parece-me que o único abre latas que o AVB dispunha no Tottenham é o Aaron Lennon, nas situações que se conhece dele: ganhar a linha de gazão e centrar. O Moussa Dembelé seria outra alternativa pelo miolo, mas ou raramente joga e quando joga está sempre muito recuado no terreno. Erikson será um bom organizador e distribuidor de jogo e um gajo muito capaz nos lances de bola parada.
    É certo que o AVB também tem como atenuante ter perdido os dois melhores jogadores no início de cada uma das épocas. Tanto Modric como Bale são gajos que resolvem jogos. Contudo, teve o que quis e o que não quis, excepto Willian e Hulk (porque Levy não se chegou à frente no último dia de mercado) e Redknapp por exemplo fez muito mais com muito menos. Lembro-me em Dezembro de 11\12, a meio de uma crise de golos, Redknapp pedir desesperadamente um avançado em Janeiro para complementar Defoe e Adebayor e ser-lhe oferecido o baratucho Louis Saha.
    Outra coisa: se Paulinho não é trinco e Sandro poderia render muito mais a central pela agressividade e capacidade de desarme que possui, porque é que dispensou o pulmão Scott Parker?

    • O Paulinho não é trinco, mas também é médio-ofensivo. Contra o Liverpool, o Paulinho estava a médio-ofensivo. O Paulinho só rende num esquema como o Scolari tem na selecção Brasileira, com um médio ao lado e outro atrás, porque é um jogador muito vertical, box-to-box, é um médio de transição. E diga-se de passagem, é dos melhores do mundo a fazer essa função. Não o peçam é mais que isso. Não tem a capacidade física nem sabe apoiar suficientemente os centrais para ser trinco, e não tem a criatividade no passe e drible para fazer a diferença como médio-ofensivo.

      O Sandro nunca me surpreendeu. E sempre me pareceu um jogador mais para jogar a central do que a médio-defensivo. Há quem goste muito dele, eu pessoalmente acho-o curto para o plantel do Tottenham. Aquela falta de velocidade e inteligência custam-lhe muito caro.

      O Levy nunca soube investir. Perdeu Willian, Hulk e ainda Moutinho no fecho do mercado, quando AVB o pediu expressamente. Então como raio se diz que o Levy está a investir bem? E como raio se diz que o investimento que o Levy faz está em consonância com o que o AVB pede? Há aqui qualquer coisa que falha.

      Scott Parker. Que agora até faz falta. Faz falta um médio como ele.

      • Concordo. Não se percebe como é com tanto dinheiro na carteira (quase 170 milhões em transferências só nos últimos 2 anos/fora a folha salarial que conseguiram abater com as saídas de crouch, bale, modric, bentley, giovanni, ledley king, huddlestone, palácios) não conseguiram alcançar esses targets. O investimento foi muito mal feito. Até em jogadores que o avb pediu. Lamela é o caso mais óbvio. Toda a gente sabia que ele não iria render, capoue não joga, chadli joga pouco. Lloris foi muito caro para os pontos que custa. Em certos sectores não existe gente, caso de defesa-esquerdo, a equipa não tem um homem de área (adebayor já não conta) precisava de outro central.
        A dispensa do scott parker foi justificada por motivos físicos se bem que da boca do jogador nada ouvimos.

  2. Excelente.
    A comparação do Villas Boas com Jesus no que toca a Defesa Esquerdo tá genial. Basta só relembrar que o topo de invenções À equerda foi quando o David Luiz jogou à esquerda. (vs FCP, 5-0 no Dragão)

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