Ténis – Balanço da Temporada ATP World Tour 2013

Após mais uma longa temporada repleta de bom ténis. Há algum tempo que não tínhamos uma temporada tão excitante, em minha opinião. Segue a minha pequena análise a esta temporada, bem como um breve olhar sobre as minhas expectativas para 2014 (que também espero escrever em breve, lá mais por altura do Natal).

Os vencedores

Rafael Nadal

Rafael Nadal

O espanhol foi o verdadeiro vencedor desta temporada. Após uma longa ausência na temporada de 2012, onde falhou a segunda metade da temporada e após falhar o Open da Austrália no início do ano, Nadal voltou à competição em Fevereiro, e teve uma temporada de terra batida ao seu estilo, e de uma forma ainda mais dominadora. Em Fevereiro, venceu 1 ATP 250 e 1 ATP 500, o que representava um indício de que estaria de volta à sua plenitude física. Em Março, superiorizou-se à concorrência no primeiro Masters 1000 da temporada em Indian Wells, mas não marcou presença em Miami, alegando que ainda não estava pronto para uma intensidade destes em tão curto espaço de tempo. Abril não foi fácil e revelou um Rafael Nadal mais frágil, e que foi batido na final de Monte Carlo pelo Djokovic. Mas em Maio, Rafael Nadal mostrou-se demolidor, vencendo os Masters 1000 de Roma e Madrid, e acabou em beleza com mais uma conquista de Roland Garros, elevando para 8 os títulos do segundo Grand Slam da temporada. Em Junho esteve bem abaixo do que pode e do que sabe, mesmo apesar da temporada de relva ser aquela que menos gosta (e mesmo apesar do seu jogo ter evoluído no sentido de melhorar essa fraqueza). Foi eliminado na primeira ronda de Wimbledon pelo surpreendente Steve Darcis. Prometeu voltar ainda mais forte e em Agosto, venceu os dois Masters 1000 de Montreal e Cincinnati. No US Open 2013, esteve uma vez mais irrepreensível, vencendo sem perder um único set ao longo do torneio. Teve depois uma recta final já a acusar algum desgaste da excelente época que fez, mas ainda chegou à final do ATP World Tour Finals, em Londres, onde sucumbiu perante um Novak Djokovic em grande forma.

O seu jogo está a evoluir para um estilo mais ofensivo e assente cada vez mais na força da pancada em vez do exagerado top spin. O seu serviço e jogo de rede também estão melhores, principalmente o primeiro. A meu ver, é expectável que Nadal continue a ser top-1 durante bastante tempo, principalmente porque não tem pontos no Open da Austrália, não deverá ceder na temporada de terra batida e em Wimbledon só pode melhorar após ter caído na 1ª ronda durante a temporada. Resta dizer, portanto, que Rafael Nadal será o alvo a abater em 2014. A verdade é que mesmo apesar do seu estilo fulgurante mas pouco apreciado em termos técnicos e das suspeitas de “doping” à volta dos tratamento do espanhol, Nadal tem continuado, ao longo dos anos, a mostrar a sua dominância no circuito.

Novak Djokovic

Novak Djokovic

Apesar de ainda estar longe do nível que exibiu em 2011 e de ter perdido o trono do circuito para Rafael Nadal, Novak Djokovic teve ainda assim uma época bastante positiva quando comparada com outros tenistas. Começou da melhor forma com a conquista do Open da Austrália. A sua consistência fez com que Chegasse à final dos outros 3 Grand Slams, mas perdeu sempre na final para o seu adversário. Também venceu os Masters 1000 de Monte Carlo, de Shanghai e de Paris. Finalizou a temporada da melhor forma com a conquista do ATP World Tour Finals no início desta semana. Muitas razões para acreditar que Djokovic ainda está por cá para durar.

Os perdedores

Roger Federer

Roger-Federer-vs.-Julien-Benneteau-in-Rotterdam-Open-2013

O melhor jogador de todos os tempos, como é considerado por alguns analistas e entusiastas da modalidade, teve a sua pior temporada de sempre desde que está no top-10 do circuito. Apenas conquistou um ATP 250 (em Halle, Junho), e não atingiu nenhuma final dos Grand Slams. A sua melhor performance ocorreu no Open da Austrália, onde foi eliminado após 5 longos sets por Andy Murray. Em Roland Garros chegou aos quartos, e em Wimbledon foi surpreendentemente eliminado na segunda ronda de Wimbledon, impotente perante o jogo de rede de Stakhovsky, e não soube superiorizar-se a um Robredo em grande forma na 4ª ronda do US Open. Ainda soube recuperar na recta final desta temporada de forma a estar presente no ATP World Tour Finals, onde ainda chegou às meias-finais, mas foi sem dúvida uma temporada extremamente abaixo daquilo que pode. Pelo meio, o seu treinador Paul Annacone foi despedido por mútuo acordo.

Pelo que vejo de Roger Federer, ainda vejo nele motivação para vencer e voltar a ser o número 1 mundial, embora reconheça que dificilmente isso irá acontecer, a não ser que volte a vencer Wimbledon e consiga fazer uma temporada Julho – Setembro sólida, de preferência com vitórias em Masters e no US Open. Apesar da sua qualidade técnica permanecer, as pernas parecem estar a ceder a cada dia que passa e o seu serviço tem descido de eficácia a olhos vistos, principalmente o segundo serviço. É possível que em 2014 tenhamos um Federer a recuperar muito do terreno que perdeu, e que irá arriscar as fichas todas na temporada de relva. Tenho muitas dúvidas de que não volte a ser top-4.

Janko Tipsarevic

Janko+Tipsarevic+2013+Australian+Open+Day+EaodIodkHnAl

Verdade seja dita, nunca o achei jogador para muito mais do que um top-20. E forçado. No ano passado, acabou a temporada no top-10, em 9º lugar. 2013 viu Tipsarevic a voltar às más exibições, e ao estranho desconforto que apresenta dentro do court, na maior parte das vezes. Não tem uma pancada que marque a diferença e demonstrou um jogo muito mais inconsistente do que na época passada. Isso fez com que descesse do 9º lugar para o 36º. E julgo que irá permanecer por lá durante algum tempo. Ou descer ainda mais.

As surpresas

João Sousa

JoaoSousa

É difícil não falar de João Sousa durante a escrita deste artigo. Subiu 52 posições no ranking mundial (de 101º para 49º) e venceu o primeiro torneio ATP 250 ganho por um português, após um épico de 3 sets diante de Julien Benneteau. Este feitos fizeram com que neste momento seja uma das estrelas em ascensão do circuito.

Outros destaques da sua brilhante temporada são a presença na 3ª ronda do US Open (eliminado por Novak Djokovic), a vitória na 2ª ronda do US Open frente ao baby-Federer Grigor Dimitrov e a vitória em 3 Challengers.

Sou da opinião que será difícil João Sousa manter esta posição de top – 50. a não ser que consiga pelo menos uma 3º/4º ronda no Open da Austrália. Contudo, dificilmente não manterá uma posição de top-60/top-70. A sua temporada de terra batida (a sua melhor superfície tendo em conta as suas características) foi abaixo do expectável, e conquistou os seus pontos nas temporadas hard court.

João Sousa ainda apresenta algumas debilidades na capacidade atacante e de reposição de bola com a sua esquerda, e o seu serviço custa a arrancar em cada jogo de serviço. Não é anormal vermos o Sousa 0-30 abaixo no seu serviço, e ganhar 4 pontos seguidos ou superiorizar-se nas vantagens. Frente a adversários mais experientes e que sabem aproveitar a pressão do adversário, será difícil superiorizar-se.

A seu favor, João Sousa tem um aspecto que é cada vez mais importante no ténis actual: capacidade mental. É absurda! A sua pancada de direita é MUITO acima da média, e será sempre a pancada que fará a diferença relativamente a outros adversários.

Stanislaw Wawrinka

Wawrinka

Sempre na sombra de Roger Federer, o suiço Wawrinka teve uma das suas melhores temporadas de sempre. A espaços, demonstrou um nível de ténis absurdamente elevado, e até esteve perto de eliminar Djokovic do US Open nas meias-finais, e ainda chegou aos quartos em Roland Garros. A subida do 17º para o 8º do ranking explica a temporada de Wawrinka: em clara evolução mesmo apesar de estar numa fase onde dificilmente evoluirá muito mais. Continua a faltar-lhe alguma estabilidade emocional, de qualquer forma. Se melhorar isso, é possível que consiga ser top-5 numa determinada altura da sua carreira.

Juan Martin Del Potro

Del Potro

Apesar de a nível global não ter sido a sua melhor temporada e de continuar a ser assolado por muitas lesões, demonstrou, a espaços, o nível exibicional que exibiu em 2009 e que lhe fez ganhar um Grand Slam (US Open). Juan Martin Del Potro chegou à final de 2 Masters 1000 e às meias-finais de Wimbledon, onde foi eliminado num épico de 5 sets frente a Novak Djokovic. Esteve, contudo, bem abaixo daquilo que pode e sabe nos Grand Slams em hard court. Contudo, e pelo que me foi dado a ver, julgo que teremos um Del Potro ao ataque do top-3 na próxima temporada, isto se conseguir manter o nível que exibiu em Wimbledon e na recta final da temporada.

Melhores jogos do ano

3 – Andy Murray def. Roger Federer (Australian Open SF) – 64 67(5) 63 67(2) 62

O jogo que marcou a primeira vitória do Andy Murray sobre o Roger Federer em Grand Slams. Um dos poucos encontros do ano onde tivemos Roger Federer no seu melhor.

2 – João Sousa def. Julien Benneteau (ATP 250 Kuala Lumpur Final) – 26 75 64

Fácil de antecipar a sua entrada nesta lista, a final de Kuala Lumpur consagrou João Sousa como o primeiro português a vencer um torneio ATP. Foi um jogo muito complicado, como era expectável. João Sousa enfrentou um Championship Point, e soube salvá-lo de uma forma inacreditável, numa pancada de elevado grau de dificuldade (1:17:54 do vídeo).

Em termos de ténis, foi longe de ser o melhor encontro do ano. Mas em termos emotivos e pelo que representa para Portugal e para os Portugueses, merece estar no pódio.

1 – Novak Djokovic def. Juan Martin Del Potro (Wimbledon SF) – 75 46 76(2) 67(6) 63

Os jogos entre o Djokovic e o Del Potro costumam ser excelentes espectáculos de ténis quando ambos se encontram ao mais alto nível, e foi isso que se verificou. O Del Potro apresentava mazelas físicas desde a 2ª ronda (!), e conseguiu sobreviver até ao quinto set das meias-finais! É um encontro repleto de excelentes pontos, e que vale a pena ver. Notável a recuperação de Del Potro no quarto set, repleta de garra e força mental, mas já não teve forças para segurar o pulmão de Djokovic no último set.

Foi mais uma temporada em grande. Tivemos regressos bem sucedidos, um português a vencer um torneio ATP 250 pela primeira vez, estrelas em curva descendente e novas surpresas prontas a atacar o top-10 como já não se vê na modalidade há muitos anos. Pessoalmente, acho que 2014 poderá ser o melhor ano de ténis em muito tempo. Em breve explicarei o porquê de o achar.

Contudo, quero também deixar uma opinião sobre o circuito, que se apresenta cada vez mais “homogéneo”. E isso não é bom, infelizmente. Cada vez mais temos uma modalidade dominada pelos baseliners (ex: Djokovic, Ferrer) e counter-punchers (Simon), pelas esquerdas a duas mãos e por jogadores que “fogem” da zona da rede como foge o diabo da cruz. Sim, é verdade que temos 3 tenistas como uma enorme variedade de pancadas em toda a extensão do campo (Federer, Wawrinka, Gasquet). Faltam jogadores com características serve-and-volley (Pete Sampras, Patrick Rafter, Tim Henman, Goran Ivanisevic), e acima disso, faltam tenistas de diferentes estilos capazes de lutar taco a taco frente ao top-10 actual. Falta cada vez mais variedade, e espero que surja uma nova geração capaz de mudar o “status quo”.

E um desejo especial para que ténis português continue a melhorar. O caminho dificilmente não será esse, após este “boom” dado por João Sousa. Tanto Gastão Elias como Pedro Sousa têm capacidades para bem mais, e se o Rui Machado recuperar o nível de outros tempos, dificilmente não voltará a cheirar o top-100.

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